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Formar professores é também cuidar

12 de set.
4 min de leitura

Há algumas semanas, quebrei a mão. Dito assim, brevemente, parece apenas um acidente, e foi... Não pretendo aqui transformar uma fratura em diagnóstico psicanalítico, romantizar a angústia ou mesmo diminuir os eventos que a causaram. Penso que não cabe atribuir ao inconsciente ou ao acaso toda a responsabilidade por um osso quebrado, ainda sim, também seria pouco dizer que nada naquele episódio me fez pensar.


Eu vinha de semanas corridas, compromissos sobrepostos, prazos, aulas, reuniões, textos, projetos, mensagens que chegavam enquanto outras ainda aguardavam resposta. Aquelas rotinas que vamos chamando de “normais”.


E então parei.


Não por escolha, parei porque, de repente, algumas coisas simplesmente já não podiam ser feitas como antes. Confesso que, olhando para trás, há algo de idiota nisso tudo. Precisamos mesmo chegar ao ponto de uma mão quebrada para diminuir o ritmo? Evidentemente que não. Mas talvez seja justamente essa a pergunta que o episódio me deixou: por que temos tanta dificuldade de reconhecer nossos limites antes que alguma coisa nos obrigue a reconhecê-los?


A frase que ficou comigo desde então é simples: às vezes, o corpo pausa quando a mente se recusa a parar. Não a apresento como máxima médica, mas como uma imagem para pensar nossa relação com o próprio limite. Em O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (Ed. Zahar, 1985, 280 p.), Jacques Lacan nos ajuda a desconfiar da ideia de que somos inteiramente transparentes para nós mesmos. O sujeito não coincide plenamente com aquilo que pensa, deseja ou acredita controlar. Há algo que escapa e que se manifesta nas brechas de nossa pretensa racionalidade.


Naturalmente, isso não significa dizer que meu inconsciente decidiu quebrar minha mão, seria uma leitura grosseira de Lacan (haha), mas me permite apresentar outras perguntas: por que continuamos, tantas vezes, mesmo quando já sabemos que estamos cansados? Por que o limite reconhecido intelectualmente não se transforma necessariamente em mudança? Por que dizemos “preciso diminuir o ritmo” pela manhã e terminamos o dia acrescentando mais três compromissos à agenda?


Talvez porque saber não seja suficiente. Então, continuamos.


Continuamos cansados, sobrecarregados. Continuamos respondendo mensagens à noite, fora do expediente, trabalhando nos fins de semana. Continuamos levando tarefas da escola para casa, aceitando mais uma atividade porque “é rapidinho”. Continuamos dizendo que depois descansaremos.


Retomando Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (Ed. Vozes, 2015, 136 p.), vivemos em uma sociedade marcada pela exigência de desempenho, isto é, já não é necessário que alguém esteja permanentemente ao nosso lado ordenando que trabalhemos mais, incorporamos a cobrança no cotidiano. Exploramos a nós mesmos acreditando que estamos apenas exercendo nossa liberdade.


Ouço com frequência: Eu consigo. Eu dou conta. É só mais essa semana. Depois eu descanso. E, muitas vezes, também digo isso.


O problema é que o “depois” quase nunca chega.


O descanso passou a produzir culpa, não fazer nada sempre parece desperdício e recusar uma tarefa pode parecer incompetência, isso quando estabelecer limites soa ser confundido com falta de comprometimento. Infelizmente, no trabalho docente, essa lógica encontra terreno fértil. Tenho ouvido, há anos, professores dizerem que não aguentam mais. E não digo isso como figura de linguagem. São professores que entram em várias salas durante o mesmo dia, às vezes em diferentes escolas. Enfrentam turmas numerosas, falta de materiais, calor, ruído, demandas burocráticas, conflitos, cobranças por resultados e, não raramente, salários que os obrigam a ampliar ainda mais sua jornada.


São profissionais que precisam ensinar e, simultaneamente, acolher. Precisam perceber quem não aprendeu Bhaskara ou pronome oblíquo enquanto também reconhecem quem chegou na escola sem comer. Precisam reconhecer a dificuldade de leitura, mas também a mudança repentina de comportamento. Nesse ponto, vale recuperar Paulo Freire: em Pedagogia da Autonomia (Ed. Paz & Terra, 2019, 144 p.), nos lembra que ensinar é uma prática puramente humana e não se reduz a transferir conteúdo. Envolve respeito, escuta, disponibilidade, alegria, esperança e reconhecimento do outro.


É claro que precisamos aprender a cuidar de nós mesmos. Dormir melhor, alimentar-nos adequadamente, fazer atividade física. Ter momentos de silêncio, procurar ajuda quando necessário, estabelecer limites... Tudo isso importa, mas autocuidado não pode significar cuidar-se para conseguir suportar aquilo que não deveria ser suportável. É aqui que Joan Tronto oferece uma contribuição: em Caring Democracy: Markets, Equality, and Justice (Ed. New York University Press, 2013, 256 p.), a filósofa política amplia o cuidado para além de uma atitude individual ou doméstica, posto que cuidar é também uma questão política. Depende de como distribuímos tempo, responsabilidades, recursos e possibilidades de participação. Em outras palavras, uma instituição, casa ou parceria que diz valorizar o cuidado precisa construir condições para que ele aconteça.


Uma formação docente comprometida com o futuro não pode discutir apenas currículo, metodologias, avaliação, inteligência artificial, inclusão ou competências profissionais. Precisa discutir também limite, escuta, sofrimento, relações humanas. condições de trabalho. E cuidado. Precisamos formar professores capazes de cuidar de seus estudantes, evidentemente, mas também de cuidar de si, de cuidar uns dos outros e de reconhecer quando precisam ser cuidados.


Depois de uma fratura, pensando em mim e nos pares com quem trabalho, conclui que deveríamos inserir nos cursos de formação uma pergunta que raramente aparece nos planos de ensino: Como você está?


Não perguntar como cumprimento, mas fazê-lo querendo ouvir a resposta.




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