top of page

O que faz um operário?

há 4 dias
7 min de leitura

Meu pai é operador de extrusora, e não, não sei exatamente o que esse profissional faz. Nunca vi uma extrusora funcionando, embora o Google tenha me dito que se trata de uma máquina capaz de transformar matérias-primas, como plásticos, borrachas e outros polímeros, em tubos, filmes, perfis e fios contínuos. Talvez seja por isso que meu pai sempre fala de SBR, PET, PS, PET e tantas outras siglas do universo das borrachas e dos plásticos. Bom, agora “eu sei” o que a máquina faz. Continuo, entretanto, sem saber muito sobre o trabalho das pessoas que a operam.


E essa constatação me incomoda. Essa semana, após as eleições, tive conversas rápidas, mas intensas, com Marilena e Letícia, parceiras de trabalho e de vida, respectivamente, sobre como as pessoas “não se importam” com os contextos alheios. E, depois, olhei para dentro de casa, especificamente para o espelho, até os pensamentos me levarem ao meu pai. Homem justo, honesto, íntegro e que dos seus 70 anos, mais de 60 passou na generalização que costumeiramente chamamos de “operário”. Trabalhando com máquinas que desconheço, produzindo coisas que provavelmente utilizei sem jamais perguntar de onde vieram. Sei que sempre acordou antes do sol, que conhece o cansaço e que o trabalho ocupou a maior parte de sua existência. Mas será que eu seria capaz de descrever sua rotina? Saber quais conhecimentos acumulou durante tantos anos? Quantas vezes precisou resolver problemas que nenhum manual explicava?


Conclui que não. E você, leitor, sabe o que fazem as pessoas que tornam possível a sua rotina?


O que faz exatamente um ferramenteiro? E um fresador? Um caldeireiro? Um operador de torno CNC? Saberia explicar o trabalho de quem mantém funcionando a estação de tratamento da água que chega ao seu filtro de água? Conhece o nome de quem recolhe seu lixo? Já perguntou ao funcionário que limpa o chão do seu trabalho sobre a vida que leva quando termina de limpar a sua? O espaço aqui é curto para discutirmos conhecimento técnico. Ninguém precisa dominar todos os ofícios, óbvio, então nos cabe algo mais incômodo: nossa capacidade de depender essencialmente de pessoas sobre as quais não sabemos absolutamente nada.


Claro que você também possui seus conhecimentos. Seja professor, escritor, enfermeiro, carteiro, pedreiro, advogado ou profissional de qualquer outra área, com ou sem diploma, há muita experiência construída no exercício do seu trabalho que os outros não compreendam. Cada profissão abriga um universo de saberes, dificuldades e pequenas invenções cotidianas. Então vamos nos ater a perguntar, se aprendemos desde cedo a reconhecer certas profissões pela importância que a sociedade atribuí a elas, porque menosprezamos outras que parecem existir apenas para garantir que a vida continue funcionando?


Talvez você já tenha percebido isso numa colmeia, indiretamente. Afinal, as abelhas possuem uma organização impressionante, enquanto algumas alimentam as larvas, outras produzem cera, constroem favos, limpam células, protegem a colônia ou recolhem néctar e pólen. Há funções distintas, desempenhadas em diferentes momentos da vida desses insetos. Entretanto, quando nos referimos à estrutura de uma colmeia, quase sempre reduzimos tudo a três categorias: rainha, zangões e operárias.


Operárias: uma única palavra para reunir aquelas que realizam quase todas as tarefas necessárias à sobrevivência coletiva. Não deixa de ser uma metáfora conveniente para nossa sociedade. Sociedade capitalista onde aprendemos que trabalhadores podem ser substituídos e a produção não deve parar, o serviço precisa continuar, as metas devem ser cumpridas. Quando alguém deixa um posto, outro assume suas funções. O crachá muda, mas a engrenagem permanece.


O mais cruel dessa engrenagem é a nossa facilidade em confundir a substituição de uma função com a insignificância de quem a desempenha. Aprendemos a classificar pessoas pela profissão, pelo salário, pela escolaridade e até pela maneira como pronunciam determinadas palavras. E, depois de classificá-las, imaginamos conhecer alguma coisa sobre elas.


Ignorante, que palavra curiosa, costumamos empregá-la para designar quem não sabe aquilo que sabemos, mas raramente nos ocorre que também somos ignorantes diante daquilo que o outro conhece. Eu, que posso passar horas discutindo educação, literatura e políticas públicas, não sei operar uma extrusora. Meu pai, que não leu os mesmos livros que eu, conhece máquinas, materiais e processos sobre os quais minha formação acadêmica pouco me ensinou. Qual de nós seria o ignorante? Talvez aquele que se julgue incapaz de aprender com o outro.


Em “Pedagogia do oprimido” (Ed. Paz & Terra, 256 p., 2019), Paulo Freire nos convida a questionar uma educação que transforma algumas pessoas em proprietárias do conhecimento e outras em meras receptoras. Sua crítica não significa negar a importância do conhecimento científico, mas reconhecer que ninguém chega ao mundo desprovido de experiências e saberes. É uma leitura que recomendo especialmente a quem costuma confundir escolaridade com inteligência e ausência de diploma com incapacidade. Afinal, que espécie de conhecimento é esse que nos permite compreender teorias complexas, mas não nos ensina a reconhecer a dignidade de quem está ao nosso lado?


Lembro, então, de outro operário. Menino nordestino, conheceu a pobreza antes de conhecer as letras, saiu de sua terra e atravessou o país na carroceria de um caminhão, trabalhou desde cedo, tornou-se torneiro mecânico e perdeu um dedo numa máquina. Anos depois, aquele mesmo homem mobilizaria multidões, enfrentaria a repressão militar, participaria da construção de um partido político e chegaria à Presidência da República.


E, apesar de tudo isso, ainda há quem o considere incapaz simplesmente porque foi metalúrgico. Porque nasceu pobre. Porque veio do Nordeste. Porque não fala como aqueles que aprenderam a confundir a elegância das mesóclises com superioridade intelectual. Pensemos na dimensão desse contrassenso. Um homem participa de algumas das maiores mobilizações de trabalhadores da história brasileira, torna-se uma das figuras políticas mais influentes do país, vence eleições presidenciais e governa durante um período em que milhões de brasileiros deixam a pobreza. Ainda assim, para alguns, continua sendo apenas um operário que não deveria estar ali.


Evidentemente, podemos discordar de suas decisões, questionar seus governos e criticar suas escolhas e devemos, inclusive. Mas há uma diferença imensa entre questionar o que alguém fez e desprezar aquilo que alguém é. Quando a origem social se transforma em argumento de incapacidade, a crítica política já foi abandonada e o que permanece é preconceito.


Entre 2003 e 2010, estimativas apontam que aproximadamente 28 milhões de brasileiros superaram a pobreza, claro que não foi obra de um homem sozinho, evidentemente. Foram políticas públicas, trabalhadores, instituições, decisões econômicas e circunstâncias históricas, mas também houve escolhas políticas. E não é nada irrelevante que alguém que conheceu a fome tenha participado da construção de políticas destinadas a combatê-la.


Existe uma distância entre estudar a pobreza e ter vivido nela porque a vida também ensina aquilo que os livros nem sempre conseguem fazer sentir. A fome pode ser descrita em gráficos, tabelas e indicadores, mas nenhum gráfico precisa decidir qual refeição deixará de fazer.


E me pergunto quantas vezes desqualificamos o conhecimento de alguém porque ele foi adquirido em lugares que não reconhecemos como legítimos. Quantas vezes desprezamos uma opinião não pelo argumento apresentado, mas pelo sotaque de quem a pronunciou? Quantas vezes consideramos alguém incapaz antes mesmo de permitir que terminasse uma frase?


Não se trata só de períodos de eleição, afinal, acontece nas universidades, nas escolas, nas empresas, nas famílias. Acontece quando um profissional com diploma se recusa a escutar alguém sem formação acadêmica. Quando um homem acredita compreender melhor a experiência de uma mulher do que ela própria. Quando alguém que nunca passou fome explica aos pobres por que continuam pobres. Quando confundimos nossa posição no mundo com uma autorização para definir o valor dos outros.


Em “Quarto de despejo” (Ed. Ática, 200 p., 2015), Carolina Maria de Jesus nos apresenta o cotidiano de uma mulher que conhecia a fome, a precariedade e a indiferença e sua escrita revelou uma inteligência que não precisou da autorização das instituições para existir. Carolina já compreendia a sociedade em que vivia antes de ser reconhecida como escritora. O reconhecimento não criou seu conhecimento, só tornou impossível que continuássemos fingindo não o ver.


Quantas Carolinas ainda precisam ser descobertas para que deixemos de tratar pessoas como se fossem invisíveis?


E aqui volto às conversas com Marilena e Letícia. Porque seria confortável encerrar esta reflexão apontando a ignorância daqueles que desprezam o operário que chegou à Presidência. Seria fácil identificar os preconceitos alheios, condená-los e seguir acreditando que estou do lado certo da história. Mas há um homem de setenta anos que me obriga a desconfiar dessa comodidade. Meu pai.


Se eu considero tão grave que alguém desqualifique um metalúrgico por não compreender sua trajetória, o que dizer de mim, que passei tantos anos convivendo com um operador de extrusora sem conhecer seu trabalho? Não são situações idênticas, eu sei. Desconhecimento não é desprezo. Mas ambos podem nascer de uma mesma disposição: a de não perguntar. A de acreditar que já sabemos o suficiente e a de reservar nossa curiosidade para aquilo que consideramos importante.


Conheço livros que meu pai nunca leu, mas ele conhece um mundo que eu nunca me preocupei suficientemente em conhecer. E, em algum momento da vida, talvez eu tenha acreditado que a educação formal me aproximava mais do conhecimento, sem perceber tudo aquilo de que também me afastava. Não é uma descoberta confortável para alguém que fez da educação sua profissão. Volto à colmeia, a rainha não é importante porque as operárias sejam insignificantes. E as operárias não precisam tornar-se rainhas para que sua existência tenha valor. Talvez nós, humanos, ainda tenhamos dificuldade em compreender algo tão elementar: não dependemos apenas das pessoas que admiramos. Dependemos também daquelas que ignoramos.


O operário que chegou à Presidência não passou a merecer respeito quando recebeu a faixa presidencial. Já o merecia quando trabalhava diante de um torno mecânico. Como também o merece meu pai, que nunca governou um país, nunca ocupou uma tribuna e provavelmente jamais aparecerá nos livros de história.


Sou professor, pesquisador e escritor. Dedico anos ao estudo, à formação docente, à leitura e à produção de conhecimentos e posso explicar o pensamento de diferentes autores, discutir metodologias de pesquisa e escrever uma crônica sobre a importância de reconhecer os saberes dos trabalhadores. Mas não sei explicar o que um operador de extrusora faz.


Observar e analisar nestas últimas eleições o meu comportamento, da minha panelinha de amigos e da sociedade em que vivo, me fez ver que a ignorância mais difícil de reconhecer não é a que nos impede de compreender o mundo, mas a que nos permite continuar vivendo sem conhecer as pessoas que o sustentam. Inclusive as que amamos.





Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Rede Internacional

Movimentos Docentes

Dúvidas (1).png
  • Instagram
  • Facebook
  • Youtube
  • Whatsapp
  • Spotify

Acompanhe nossas redes e faça parte

da nossa Comunidade Movimentos Docentes

Rede MD e Movimentos Docentes é uma marca registrada © 2025

Desenvolvido por Viesba & Viesba Consultoria e Projetos

Apoio e desenvolvimento:

Logo_vv (2).png
bottom of page