A escola precisa aprender com o comum
- Washington Santos
- 16 de mai.
- 3 min de leitura
A escola brasileira precisa reaprender a ouvir. Ouvir não apenas os livros, os documentos oficiais e as avaliações externas, mas também os territórios, os trabalhadores, as comunidades, os movimentos sociais, as cooperativas e os sujeitos que, mesmo fora dos espaços tradicionais de poder, produzem saberes todos os dias.
Durante muito tempo, fomos ensinados a acreditar que conhecimento válido é apenas aquele que nasce dentro da universidade, dos gabinetes ou dos manuais técnicos. Essa visão é limitada, porque desconsidera a inteligência prática de quem organiza a vida no cotidiano, enfrenta dificuldades concretas, cria soluções coletivas e aprende com a experiência.
Paulo Freire nos lembrava que educar não é depositar conteúdos na cabeça dos estudantes, mas ajudá-los a ler o mundo e participar de sua transformação. Por isso, uma escola que apenas repete conteúdos, sem dialogar com a vida concreta dos alunos, corre o risco de formar pessoas para decorar respostas, e não para compreender a sociedade.
A economia solidária oferece uma lição importante para a educação. Quando trabalhadores se organizam em cooperativas ou associações, eles não buscam apenas renda. Aprendem a decidir juntos, dividir responsabilidades, enfrentar conflitos, administrar recursos, cuidar do território e defender sua dignidade. Há, nesse processo, uma verdadeira pedagogia do comum.
Paul Singer mostrou que é possível pensar o trabalho para além da competição individual, com cooperação, autogestão e democracia nas decisões. Nas cooperativas de catadores e recicladores, por exemplo, sujeitos muitas vezes invisibilizados pela cidade se afirmam como trabalhadores, agentes ambientais e produtores de conhecimento. Conhecem os materiais, os caminhos da coleta, os desafios da comercialização, os limites das políticas públicas e as dificuldades de manter um coletivo funcionando. Esse saber não é menor. É um saber vivido.
Boaventura de Sousa Santos chama atenção para o desperdício da experiência: muitas sociedades deixam de aprender com os saberes populares porque só reconhecem como legítimo aquilo que vem dos espaços oficiais. Assim, experiências ricas de organização coletiva são tratadas como improviso, carência ou informalidade. A escola não pode reproduzir essa cegueira.
Quando uma comunidade se reúne para resolver um problema comum, há educação. Quando uma cooperativa decide como repartir os ganhos, há educação. Quando trabalhadores discutem suas dificuldades, há educação. Quando uma associação de bairro luta por melhorias, há educação. Nem toda aprendizagem acontece sentada em uma carteira escolar.
Uma proposta concreta é aproximar a escola dos territórios. Levar os estudantes a conhecer cooperativas, associações, experiências de agricultura familiar, grupos culturais, projetos comunitários e iniciativas ambientais. Não como passeio sem sentido, mas como atividade pedagógica planejada, com escuta, registro, reflexão e produção de conhecimento.
Também é necessário trazer esses sujeitos para dentro da escola. Catadores, agricultores, artesãos, mestres da cultura popular, lideranças comunitárias, mulheres trabalhadoras, jovens periféricos e pessoas que constroem a vida coletiva têm muito a ensinar. A presença deles ajuda os estudantes a compreender que o conhecimento não está separado da vida.
Educar para a democracia não pode ser apenas explicar conceitos no quadro. É preciso praticar escuta, participação real e responsabilidade coletiva. A escola que aprende com o comum se torna mais viva: deixa de ser apenas um prédio onde se repetem conteúdos e passa a ser espaço de encontro entre saberes.
Talvez uma das maiores tarefas da educação hoje seja reconhecer que há inteligência onde a sociedade costuma enxergar apenas carência. Há saber onde muitos veem pobreza. Há pedagogia onde muitos veem trabalho simples. A escola precisa aprender com o comum porque o comum nos ensina a viver juntos; e, em uma sociedade marcada por desigualdades, essa talvez seja uma das lições mais urgentes.
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