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Quando um país decide ler: o novo Plano Nacional do Livro e Leitura

Algumas decisões políticas ocupam as manchetes e redes sociais por alguns dias, a grande maioria delas permanecem por alguns anos...


Quando um país estabelece um plano nacional para o livro e a leitura pelos próximos dez anos, não está só definindo metas administrativas, mas, também, declarando, ainda que de forma silenciosa, qual projeto de sociedade deseja cultivar.


A recente publicação do novo Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) para o período de 2026 a 2036 recoloca o livro e a leitura no centro das políticas públicas brasileiras. Nosso tempo está marcado pela aceleração das informações, pela fragmentação da atenção e pela predominância de conteúdos breves, então a decisão de planejar uma década de investimentos em bibliotecas, formação de leitores e circulação de obras literárias carrega um significado que ultrapassa os indicadores estatísticos.


Para além da discussão política, a pergunta que me surgiu é simples: o que significa um país decidir ler?


Antes de explanar minha reflexão, seja necessário lembrar que a leitura nunca foi uma prática neutra. Ler sempre envolveu acesso ao conhecimento, participação na vida pública e ampliação das possibilidades de compreensão do mundo. Em diferentes momentos históricos, a alfabetização e o acesso aos livros estiveram associados a disputas de poder, processos de emancipação social e transformações culturais que enfrentam as raízes de sistemas econômicos.


O historiador francês Roger Chartier, em A aventura do livro (Ed. UNESP, 2002) lembra que a leitura é uma prática cultural construída historicamente, isto é, os modos de ler mudam, os suportes se transformam e as relações entre leitores e textos se reorganizam ao longo do tempo. Ainda assim, permanece uma característica fundamental: a leitura continua sendo um dos instrumentos mais importantes para a construção da autonomia intelectual. Se um governo estabelece como meta ampliar o percentual de leitores da população, ainda que, eventualmente, você possa dizer que é apenas para melhorar índices culturais, não podemos deixar de reconhecer que as capacidades implícitas à prática, como interpretar textos, narrativas, informações e discursos influenciará diretamente a participação democrática e o exercício da cidadania. Correto?


Essa compreensão não é nova, nem é só minha, mas baseada em Paulo Freire, em A importância do ato de ler (Ed. Cortez, 1989) e diversos outros autores que consideram que a leitura da palavra está intimamente ligada à leitura do mundo. Antes mesmo de decifrar letras, os sujeitos interpretam a realidade que os cerca, portanto, a leitura não se limita ao domínio técnico da escrita, pois permite compreender relações sociais, questionar desigualdades e produzir novos sentidos sobre a própria existência. Sob essa perspectiva, a meta de ampliar o número de leitores no Brasil não pode ser reduzida a uma questão quantitativa. O desafio não consiste só em aumentar o número de pessoas que leem, envolve ainda a ampliação das condições para que mais cidadãos possam interpretar criticamente a realidade em que vivem.


O PNLL também propõe a ampliação do número de bibliotecas públicas e comunitárias. E aqui me cabe dar uma atenção especial. Já comentei contigo, leitor e leitora, que nos primórdios de minha infância, meus pais dispunham de poucos recursos para comprar livros. Quando não lia os materiais da igreja em que minha mãe trabalhava ou da escola, certamente estaria na biblioteca do bairro. Naquele tempo, na verdade até 2015, 2020, as bibliotecas ainda tinham algum protagonismo no universo da leitura, já hoje, são consideradas por alguns como depósitos de livros.


Para o sociólogo colombiano Jesús Martín-Barbero, na obra Dos Meios as Mediações (Ed. URFJ, 2009), os espaços culturais funcionam como territórios de mediação, onde conhecimentos, memórias e experiências coletivas são compartilhados. Bibliotecas públicas então não são só locais de depósito e consulta, podem se tornar, ou voltar a serem, pontos de encontro, formação cultural e fortalecimento dos vínculos comunitários. Garantir que todos os municípios brasileiros possuam ao menos uma biblioteca pública em funcionamento representa, portanto, um compromisso com a democratização do acesso à cultura. O reconhecimento dessas propostas no PNLL indica uma compreensão importante: a formação de leitores não acontece só dentro das escolas, também ocorre nas praças, nos centros comunitários, nas associações de bairro, nos clubes de leitura e em inúmeros espaços onde as pessoas compartilham histórias, experiências e saberes.


Outro aspecto relevante do PNLL é a proposta de distribuir cem milhões de livros até 2035. A medida é significativa, mas convida a uma reflexão: distribuir livros é fundamental, entretanto, livros entregues não se transformam automaticamente em leitura, né? Experiências brasileiras, como a do Itaú “Leia com uma criança”, são sucessos em números, mas vemos que as famílias raramente dispõem de tempo para isso, como a Marilena Rosalen já explorou aqui em coluna passada. Poderíamos discutir a escala de trabalho 6x2, mas deixarei isso para outros contribuintes do jornal. Voltando ao fio, o acesso ao livro é condição necessária, mas insuficiente, é preciso considerar também a formação de mediadores, o fortalecimento das bibliotecas, a valorização dos professores e a construção de ambientes favoráveis à leitura.


Nesse ponto, o plano acerta ao incluir ações voltadas à formação de mediadores de leitura: professores, bibliotecários, agentes culturais e educadores desempenham papel decisivo na aproximação entre leitores e textos. Muitas vezes, uma experiência marcante de leitura surge a partir do entusiasmo de alguém que apresenta um livro, compartilha uma história ou faz uma recomendação.


Ao observarmos a história recente do Brasil, percebemos que os desafios são consideráveis. Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil têm apontado, ao longo dos anos, dificuldades relacionadas à formação de leitores, ao acesso aos livros e à manutenção dos hábitos de leitura. O avanço das tecnologias digitais, embora tenha ampliado o acesso à informação, também trouxe novas disputas pela atenção. A leitura literária enfrenta concorrentes poderosos, como as plataformas digitais, vídeos curtos, algoritmos e fluxos incessantes de conteúdo disputam cada minuto disponível. Talvez por isso o novo PNLL seja tão relevante. Seu significado ultrapassa a dimensão cultural, pois o plano representa uma aposta na formação de sujeitos capazes de sustentar a atenção, elaborar pensamentos complexos, interpretar informações contraditórias e participar criticamente da vida social.


Quando um país decide investir em leitura durante uma década, está também investindo na capacidade de diálogo entre diferentes gerações. Está fortalecendo a preservação da memória coletiva, logo, está criando condições para que novas vozes encontrem espaço de expressão. É claro que ler não resolve todos os problemas sociais, não elimina desigualdades, tampouco substitui políticas de renda, saúde ou moradia. Entretanto, torna possível compreender esses problemas de forma mais ampla e participar ativamente da busca por soluções, afinal, em uma democracia, leitores são fundamentais.




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