Sei agora por que você chora: 35 anos de O Exterminador do Futuro 2
- Raphael Rosalen
- 25 de jul.
- 4 min de leitura

Em julho de 1991, a Guerra Fria estava acabando, mas aos trancos: naquele mesmo mês, Bush e Gorbachev assinaram um tratado para cortar arsenais nucleares em 25%. Porém, a União Soviética só deixaria de existir em dezembro. E o medo de que uma guerra começasse era real o suficiente para estar no noticiário toda semana. Foi nesse verão norte-americano que chegou às telas o filme mais caro da história até então: O Exterminador do Futuro 2, de James Cameron, com um orçamento de US$ 94 milhões. E laboratórios federais americanos declararam a cena do pesadelo nuclear do filme uma das representações mais precisas de uma explosão nuclear já criadas para o cinema.
O filme começa no futuro, num mundo destruído por Skynet, um sistema de defesa militar com inteligência artificial que decidiu exterminar a humanidade. Dois robôs voltam ao presente: um para matar John Connor, filho de Sarah Connor e futuro líder da resistência; outro para protegê-lo. O assassino é o T-1000, uma criatura de metal líquido capaz de assumir qualquer forma. O protetor é o T-800, interpretado por Arnold Schwarzenegger, o mesmo modelo que havia aterrorizado Sarah no primeiro filme, agora reprogramado para o lado certo.

O primeiro Exterminador (1984) custou US$ 6,4 milhões e faturou US$ 78 milhões, o que transformou Schwarzenegger em uma estrela de Hollywood de grande sucesso. Para a continuação, Cameron fez a aposta mais estranha possível: o monstro do primeiro filme seria o herói do segundo. O próprio Schwarzenegger leu o roteiro e foi direto ao diretor: "Jim, tenho um grande problema. Eu não mato ninguém, e eu sou o Exterminador." Cameron convenceu, e T2 faturou US$ 520 milhões, tornando-se o filme mais visto de 1991.
David Ansen, na Newsweek de 7 de julho de 1991, chamou Cameron de "o Wagner operário do cinema de ação", comparando-o ao compositor alemão do século XIX famoso por óperas de escala monumental, mas com um adjetivo que deixa claro que essa grandiosidade estava sendo aplicada ao entretenimento de massa, não à alta cultura. Para Janet Maslin, no New York Times, o filme era "um apelo armado pela paz": uma obra que usa violência extrema para argumentar contra ela. Os dois críticos chegaram ao mesmo paradoxo por caminhos diferentes, e o filme mais violento do verão de 1991 era, no fundo, antiviolência.
O que o filme está dizendo de verdade, Cameron resumiu em 2021, numa entrevista ao The Ringer: "O Exterminador, no fundo, não é sobre máquinas. É sobre a nossa tendência de nos tornarmos máquinas."
Sarah Connor é a demonstração mais perturbadora dessa ideia. A personagem interpretada por Linda Hamilton entra em cena numa clínica psiquiátrica, internada porque tentou avisar o mundo sobre o fim que vinha aí, mas ninguém acreditou. Quando sai, ela planeja matar um engenheiro inocente antes que ele invente algo que destrua o mundo. Quase consegue: ela esvazia um carregador nas costas desse homem, fria e metódica, tendo desligado a compaixão e se tornado exatamente o que prometeu combater.
O T-800 faz o caminho oposto. Sendo uma máquina, ele não consegue sentir, mas aprende, ao longo do filme, o que significa sentir, chorar. No final, antes de salvar a humanidade, ele olha para John Connor, que está chorando, e diz: "Sei agora por que você chora. Mas é algo que nunca vou conseguir fazer." Cameron chamou esse arco de "o Homem de Lata ganhando o coração" e comparou T2 ao Mágico de Oz, que não é uma comparação óbvia para um blockbuster de ação, mas faz todo sentido.
Trinta e cinco anos depois, Cameron está mandando o filme de volta às salas de cinema. A estreia acontece em 29 de agosto de 2026, data escolhida a dedo: é o “dia do julgamento” do universo do filme, o dia em que Skynet lança o ataque nuclear e destrói o mundo. Em dezembro de 2024, 166 países votaram na ONU a favor de um tratado para proibir armas autônomas letais, sistemas que selecionam e matam sem decisão humana. Cameron tem repetido, em entrevistas recentes, que os temas do filme se tornaram mais urgentes com o avanço real da inteligência artificial. Em 2023, ao ser questionado sobre os riscos da IA, ele foi direto: “Avisei vocês em 1984, e vocês não ouviram.” O Skynet, que parecia ficção científica, hoje tem vários nomes e até aplicativos de celular.
Em 2025, a designer filipina trans Veejay Floresca chegou à final do Project Runway com uma coleção de roupas chamada "A Beautiful Moment" ("Um Lindo Momento"). A inspiração era o filme T2, especificamente o vilão T-1000 e sua estética metálica. Veejay cresceu assistindo T2 com seu pai, que faleceu quando ela era criança. Quando chegou a hora de criar a coleção mais importante de sua carreira até então, ela se lembrou do "Mercury guy", o homem de mercúrio, e transformou o metal líquido em couro metálico prateado, em malha cinza drapeada, e num vestido de cota de malha costurado à mão. Michael Kors disse que o vestido era "espetacular, glorioso." Ela disse: "Quero alcançar aquele poder de vilão que o T-1000 tem. Você não consegue matá-lo. Passei por muita coisa, mas ainda estou aqui. Você não consegue me matar." E foi com essa coleção que Veejay venceu a 21ª temporada de Project Runway.

O que foi criado para destruir virou armadura, virou tributo, e virou vitória. O que foi criado para destruir virou armadura, virou tributo, virou vitória. É exatamente o que o T-800 aprendeu antes de afundar no aço: que existem momentos bonitos, e que existe algo na pura e bagunçada humanidade que vale a pena proteger.
Bom filme.
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