30 Anos de Ligadas pelo Desejo: Que tiro foi esse?

Antes do canal Bravo colocar uma mulher na frente de uma câmera de confessionário no reality show Real Housewives e deixá-la ser glamourosa, engraçada e discretamente no controle de tudo, havia Violet em Ligadas pelo Desejo (Bound, título original). O filme de 1996 que lançou a carreira das irmãs Wachowski, mais tarde criadoras de Matrix, completa 30 anos esse ano, e revê-lo hoje é difícil não enxergar Violet como a “housewife” (dona de casa) original, antes mesmo do reality show existir.
A premissa, para quem ainda não viu (tem spoilers, desculpa!): Corky, vivida por Gina Gershon, é uma ex-presidiária que sai da cadeia e arruma um emprego de encanadora num prédio onde Violet, vivida por Jennifer Tilly, mora com o namorado Caesar, um lavador de dinheiro da máfia que guarda cerca de dois milhões de dólares do clã no cofre do apartamento. Corky e Violet começam um caso, e depois bolam um plano: roubar o dinheiro, fazer parecer que Caesar o levou ele mesmo, e desaparecer antes que alguém descubra o que realmente aconteceu. No final, as duas fogem juntas com todo o dinheiro no porta-malas. Caesar e os homens ao redor dele não sobrevivem à noite, mas Violet e Corky nunca chegam nem a ser suspeitas. Só esse final já era uma jogada arriscada em 1996, época em que mulheres em filmes de crime quase nunca simplesmente ganhavam.
Mas o final nem é a melhor parte. A melhor parte é acompanhar como Violet chega lá. Ela interpreta o papel de namorada de Caesar exatamente do jeito que ele quer: doce, decorativa, levemente ingênua, completamente inofensiva. Mas ela não é nada disso. O tempo todo, ela está lendo cada homem do prédio, e Caesar, que pensa que a conhece inteiramente, não vê nada vindo. É uma performance completa, com glamour e tudo, e é ela quem está dirigindo. A própria Tilly disse que o papel era de um tipo que ela reconheceu na hora: "uma mulher subestimada por todos os homens ao redor, e não preciso fazer nenhuma pesquisa para interpretar isso." Ela passou anos interpretando exatamente esse tipo de personagem em tom de comédia, incluindo uma atuação indicada ao Oscar como namorada ingênua de um mafioso em Tiros na Broadway (1994), antes de Ligadas pelo Desejo deixá-la interpretá-lo de verdade.
É essa parte que parece tão familiar hoje. O reality show norte-americano Real Housewives passou vinte anos construindo um gênero inteiro em torno exatamente disso: uma mulher que parece estar ali só para ser glamourosa e olhada, e que acaba sendo a pessoa mais inteligente e no controle da sala o tempo todo. E não é apenas uma atitude que a série performa. Várias Housewives de verdade já viveram uma versão do enredo de Violet na vida real: Teresa Giudice foi presa por fraude e voltou para o programa mesmo assim, e está nele até hoje. Jen Shah foi (e continua) presa pelo governo federal por dirigir um esquema de telemarketing fraudulento. Mas a persona não sobrevive automaticamente ao crime. Ela precisa funcionar de verdade, na frente de uma audiência, para isso acontecer.
O que torna tudo isso uma coincidência genuinamente divertida é o fato de que Jennifer Tilly agora participa do reality. Ela entrou para o The Real Housewives of Beverly Hills em 2024, e fontes internas da Bravo estão reportando que ela está prestes a ser promovida a membro fixo do elenco na 16ª temporada. A mulher que interpretou o protótipo está entrando direto no mundo que ela antecipou.
Ela tem boa companhia por lá também. Erika Girardi aparece no programa como "Erika Jayne", uma persona pop polida e maior que a vida, e essa persona fez um trabalho real por ela. Sua “performance” no programa a manteve empregada, visível e contando a própria história durante um escândalo genuinamente sério. Seu marido, Tom Girardi, de quem ela está separada desde 2020 mas cujo divórcio nunca foi finalizado, foi um dos advogados de litígio mais poderosos do país antes de ser condenado em 2024 por fraude eletrônica, por roubar milhões de seus próprios clientes, incluindo indenizações devidas às famílias das vítimas do voo Lion Air 610, em 2018. A própria Erika nunca foi indiciada criminalmente, mas um síndico de falência a processou por 25 milhões de dólares, alegando que ela havia se beneficiado pessoalmente do dinheiro roubado. O caso estava indo a julgamento em maio desse ano e foi encerrado silenciosamente, dias antes de começar, sem veredicto e sem nenhum acerto de contas público sobre quem sabia o quê. Durante tudo isso, Erika continuou sendo notavelmente hábil em controlar a própria narrativa na câmera. Em determinado momento, descartou as supostas vítimas do marido de forma direta, chamando-as de meras vítimas "em potencial" que "podem não estar dizendo a verdade". Ela interpretou seu papel televisivo bem o suficiente para manter o programa, o nome, e a renda durante um escândalo que teria encerrado o espaço de quase qualquer outra pessoa nele.
Violet teve seu final em um filme e foi embora. Erika ainda está fazendo isso, temporada após temporada, sem final à vista, e ainda está de pé. Há uma pergunta real por baixo das duas histórias, uma que a crítica Laura Mulvey levantou décadas atrás quando observou que o cinema clássico de Hollywood quase sempre divide seus personagens em dois tipos: os que olham, e as que existem para ser olhadas. Violet e Erika parecem ter invertido esse arranjo, transformando o fato de ser olhada na própria ferramenta que usam para ganhar. Se isso é de fato uma saída da armadilha, ou apenas uma forma mais inteligente de continuar dentro dela, vale pensar, já que toda a vantagem delas ainda depende de alguém assistindo. Talvez seja esse o verdadeiro truque que as duas puxaram: transformar os olhos da audiência numa arma em vez de numa gaiola.
Talvez seja também o que torna tudo isso tão satisfatório de assistir. Em parte, é simples: somos a única pessoa na sala que está por dentro, sabemos o que Caesar não sabe, da mesma forma que os espectadores sabem coisas que as outras Housewives não sabem. Mas tem algo mais pessoal nisso também. A maioria de nós acaba sendo “encaixotada” por alguma versão dessa mesma expectativa em algum momento: decorativo, inofensivo, não digno de ser levado a sério. E a maioria de nós responde encolhendo, se conformando, ficando pequeno o suficiente para se manter seguro dentro disso. Violet e Erika não encolhem. Elas pegam a caixa e a usam, transformando exatamente o que foi criado para mantê-las pequenas na coisa que as faz ganhar. Assistir a isso acontecer, com ousadia, à vista de todos, tem seu próprio prazer, especialmente para quem já fez silenciosamente o oposto.
Trinta anos atrás, Ligadas pelo Desejo nos apresentou uma mulher que usou cada suposição que as pessoas faziam sobre ela para sair com tudo. O Real Housewives, que também completa vinte anos esse ano, pegou essa mesma ideia e construiu um gênero televisivo inteiro a partir dela, com mulheres reais e consequências reais em vez de um roteiro.
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