O campo também é delas: cultura e a visibilidade no futebol feminino
A cada quatro anos eu tenho a nostalgia de lembrar da minha infância em terras cariocas, quando caminhava pelas ruas de Guadalupe e observava os muros pintados com desenhos e caricaturas dos jogadores da seleção brasileira. Eu me sinto privilegiada por ser de uma geração que viu o Brasil ganhar o tetra e o penta. Mas este ano a Copa do Mundo chegou ao fim e o Brasil, ficou longe de alcançar o tão sonhado hexacampeonato.
Essa foi uma edição histórica: pela primeira vez, a FIFA apostou sua organização em três países para sediar a Copa do Mundo de 2026 — México, Estados Unidos e Canadá —, a exemplo da Copa do Mundo Feminina de 2023, que foi sediada na Austrália e na Nova Zelândia e também teve a seleção da Espanha como grande estrela.
Nesta Copa, conhecemos Josimar José Évora Dias, o famoso Vozinha, goleiro de Cabo Verde, que fez sucesso entre diferentes gerações. Para colecionadores de figurinhas e álbuns, Vozinha foi uma figurinha muito aguardada tanto por crianças quanto por adultos.
A Copa do Mundo é uma verdadeira aula sobre a vida e sobre culturas. Nesse período, observamos que escolas públicas e privadas realizaram atividades com bandeiras, países, continentes, línguas estrangeiras e outras propostas criativas. Além disso, a mistura que acontece a cada quatro anos no Brasil — os festejos juninos junto com a Copa do Mundo — tornou os meses de junho e julho ainda mais coloridos, com bandeirinhas verde e amarelas e balões de São João.
Apesar de aprendermos muito sobre convivência dentro e fora do campo, ainda temos muito a aprender com o esporte e suas histórias. Já observamos que a mídia vem divulgando a Copa do Mundo de 2030, mas pouco se comenta que, em 2027, o Brasil será sede da Copa do Mundo de Futebol Feminino, um futebol que foi historicamente proibido durante quatro décadas no país (1941-1979).
A Copa do Mundo de Futebol Feminino está entrando em sua décima edição, e podemos perceber o quanto ainda enfrenta desafios. Primeiro, porque culturalmente as mulheres foram hierarquizadas como inferiores aos homens, e isso permanece no inconsciente coletivo. Segundo, porque vivemos em uma sociedade que subnotifica informações dessa categoria. Durante muito tempo, as mídias mencionaram pouco sobre o futebol feminino, mesmo em tempos expansão das comunicações, a TV aberta só passou a transmitir jogos das seleções femininas em 2019.
E aí está uma lacuna importante para debate: pouco se noticia sobre os nomes das jogadoras. Suas trajetórias e superações raramente aparecem em documentários sobre suas carreiras, e tampouco comentamos sobre elas nas rodas de amigos e familiares. Bandeirinhas enfeitando as ruas para os jogos delas? Escolas envolvidas para decorar escolas e na valorização dessas mulheres jogadoras?
Se perguntarmos às crianças o nome de dois jogadores de futebol, possivelmente elas saberiam dizer. Mas, se a pergunta se referir a uma jogadora, posso afirmar que muitas não teriam referências para mencionar.
Nos últimos anos, estive pesquisando sobre a presença feminina em espaços de predomínio masculino. Ouvi muito que “não existiam desigualdades entre homens e mulheres” e que “as mulheres já recebem muitos direitos”. Seria isso um erro de percepção ou nossa cultura nos conduziu a não enxergar o que acontece à nossa volta?
Quem lembra que, em 2010, a melhor jogadora do mundo, Marta, recebeu uma cesta de produtos de limpeza como prêmio? Um prêmio que reforça o que o mundo ainda espera das mulheres: “seus lugares como organizadoras do lar”. Pierre Bourdieu chamou essas pequenas atitudes de violência simbólica, que, neste caso, reforça o domínio masculino.
Todas as vezes que apresento dados da minha tese, faço questão de mostrar, lado a lado, uma fotografia de Marta recebendo uma cesta de produtos de limpeza e, ao lado, um jogador famoso recebendo troféus e carros de luxo de seus patrocinadores. Consigo perceber nitidamente a reação de espanto das pessoas (geralmente acadêmicos de pós-graduação), que possivelmente nunca pararam para perceber o quanto as mulheres ainda são colocadas em segundo plano.
Para muitos, quando as mulheres foram autorizadas a jogar futebol em 1979, já era uma grande vitória — e, então, seria “demais” uma jogadora receber um carro ou contratos com valores correspondentes aos do futebol masculino. Seria muito para uma mulher? A mensagem contida na pouca valorização do futebol feminino é recheada de machismo e, apesar de já receberem bons patrocinadores, ainda estão longe do glamour e reconhecimento que o futebol masculino possui.
Jogadora do Corinthians, considerada a rainha das embaixadinhas, Milena Domingues lembra que começou a fazer embaixadinhas porque os meninos não a deixavam jogar. Sua carreira é inspiração e abriu caminhos para que outras jovens jogadoras pudessem sonhar com o campo e com uma carreira no esporte.
Nós, da escola, podemos incentivar as crianças a reconhecerem o protagonismo feminino no futebol. Ao lembrar que 2027 é ano de Copa do Mundo Feminina é uma forma de esperança de que mulheres e meninas possam ser vistas e respeitadas dentro e fora de campo. Sediar a Copa do Mundo Feminina é um marco importante para o Brasil e fortalece uma categoria que, por muito tempo, ficou invisível.
Então, é momento de celebrar com bandeirinhas, troca de figurinhas, reuniões entre amigos e familiares. A escola e a sala de aula é um espaço rico para plantar uma sementinha cultural e proporcionar novos diálogos, despertando curiosidades. Quem sabe daqui alguns anos essas crianças se lembrem de muros pintados com desenhos da seleção brasileira que retrate o campo de futebol como um espaço ocupado por elas.
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