Do estádio à escola: uma leitura sobre a educação por trás do espetáculo
- Everton Viesba

- 25 de jul.
- 5 min de leitura
O apito final de uma Copa do Mundo nunca encerra apenas a partida, afinal, quando a bola para de rolar, permanecem as imagens, os gestos, as narrativas, os milhares de memes do Messi e os sentimentos produzidos ao longo da competição. Ficam as comemorações, as frustrações, os personagens inesperados, as canções repetidas e as conversas que se desenvolveram nas casas, trabalhos e redes sociais. A Copa termina no campo, mas continua circulando na cultura.
A edição de 2026 talvez tenha oferecido uma imagem expressiva dessa capacidade de ultrapassar as fronteiras do esporte. No intervalo da final, o estádio foi transformado em palco para um espetáculo que reuniu música popular, orquestra, personagens da cultura televisiva, ídolos do futebol e um coral formado por estudantes. Madonna, BTS, Shakira, Burna Boy, Justin Bieber, Chris Martin e os Muppets dividiram a cena com uma orquestra conduzida por Gustavo Dudamel. Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho acrescentaram ao espetáculo a presença inequivocamente brasileira. Aos olhos leigos, o encontro pode ser visto como mais uma grande produção midiática, planejada para ampliar audiências, multiplicar patrocinadores e apostas e transformar o futebol em entretenimento permanente. E, claro, em certa medida, ele também foi isso. A crescente aproximação da final da Copa com o modelo dos espetáculos do Super Bowl recebeu críticas de torcedores, comentaristas e artistas que questionaram o excesso de celebridades e a progressiva comercialização do evento.
Entretanto, seria igualmente limitado reduzir tudo a uma estratégia de mercado, afinal mesmo quando planejado por grandes corporações, um espetáculo dessa dimensão mobiliza símbolos que escapam ao controle absoluto de seus organizadores. As pessoas interpretam, ressignificam, criticam, celebram e transformam aquilo que assistem e a cultura passa a ser recebida ativamente, entrando nas disputas de memória, identidade, pertencimento e representação, ainda que não seja o objetivo primário de quem promoveu o evento. A cerimônia pode, assim, ser compreendida como uma grande aula pública. Não uma aula organizada em carteiras, conteúdos e avaliações, mas uma experiência coletiva por meio da qual milhões de pessoas entram em contato com diferentes linguagens; música, dança, humor, interpretação, performance, esporte e memória histórica passaram a ocupar simultaneamente o mesmo campo.
O coral presente no encerramento tornou visível a sonoridade das vozes reunidas. Uma voz isolada pode ser bela, mas um coral exige escuta, preparação e responsabilidade coletiva e isso ficou claro em milhões de lares pelo mundo. Cada participante precisou reconhecer o próprio tempo e, ao mesmo tempo, perceber o tempo do outro, ninguém ali cantou para si, mas sim para o mundo. Essa imagem oferece uma boa metáfora para a educação porque uma escola também é formada por vozes diferentes, nem sempre afinadas, frequentemente compostas por discordâncias, desigualdades e conflitos. Mas, tal qual o maestro à frente da orquestra, na sala de aula educar não significa eliminar essas diferenças, mas criar condições para que possam coexistir, dialogar e construir algo comum.
Por falar em orquestra, esta também acrescentou outro elemento a essa aula pública; os instrumentos distintos, com sonoridades e funções diversas, reuniram-se sob uma composição compartilhada e a harmonia não surgiu porque todos produziam o mesmo som, mas surgiu justamente porque as diferenças foram organizadas sem que cada instrumento perdesse sua identidade. Em uma sociedade democrática, a educação deveria realizar movimento semelhante. A participação dos Muppets, confesso, tomou toda a minha atenção. Trazendo à tona, para mim e, com certeza, outras milhares de pessoas, uma memória afetiva calorosa, introduziu o afeto e o brincar, o humor e a imaginação em um ambiente marcado pela intensidade da competição. Doido, né? Bonecos conhecidos por diferentes gerações dividiram o palco com artistas internacionais, jogadores históricos e músicos profissionais, esta presença reforça que o lúdico, o brincar, a simplicidade de fantoches e bonecos, não pertencem exclusivamente à infância.
Johan Huizinga, em Homo ludens (Ed. Perspectiva, 2019, 304 p.), defende que o jogo é um elemento fundamental da cultura, considerando que antes de ser atividade recreativa, jogar exige produzir regras, símbolos, rituais, pertencimentos e significados. O futebol confirma essa leitura: existe como esporte, mas também como linguagem, narrativa, memória familiar e forma de interpretar o mundo. O problema começa quando o jogo deixa de admitir a humanidade do adversário, isto é, se a competição pode estimular criação, esforço e pertencimento, também pode alimentar humilhações, nacionalismos agressivos e diferentes formas de violência. A mesma torcida que canta em conjunto pode transformar sua voz coletiva em instrumento de hostilidade.
Por isso, qualquer leitura pedagógica da Copa precisa evitar uma celebração ingênua; o torneio de 2026 também foi palco de episódios de racismo, xenofobia e discriminação. Jogadores, torcedores e personalidades públicas foram alvo de ataques, enquanto discursos de ódio circularam com intensidade nas redes sociais. A própria FIFA informou que a violência racial havia se tornado uma ameaça persistente e representava parcela significativa dos abusos detectados durante a competição. Também não desapareceram os atos de violência física e simbólica dentro e fora do campo. Discussões, provocações, agressões e comportamentos hostis recordaram que o futebol não está separado da sociedade. Ele reproduz desigualdades, preconceitos, tensões políticas e formas de exclusão que já existem no cotidiano.
Reconhecer essa realidade não diminui a importância cultural da Copa, mas torna sua análise mais necessária. A educação não deve se aproximar apenas daquilo que considera exemplar, também precisa examinar as contradições, os conflitos e as violências que participam da formação social.
Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, não apareceram no palco como antigos atletas, afinal, eles carregam memórias de outras Copas e uma determinada representação do futebol brasileiro. Ronaldo remete à força, à superação e aos gols que marcaram gerações, enquanto Ronaldinho evoca criatividade, improviso, alegria e uma relação quase brincante com a bola que cativa a todos nas redes sociais. Essa presença ao lado de Madonna tornou-se uma das imagens mais comentadas do espetáculo. Não era o Brasil campeão que entrava em cena, mas o Brasil reconhecido mundialmente por sua história futebolística e pela capacidade de produzir personagens que ultrapassaram o próprio esporte.
Traçar essa e outras leituras sobre tais espetáculos, nos permite lembrar que a cultura é formada por experiências compartilhadas, isto é, pessoas que nunca se encontraram podem recordar o mesmo gol, a mesma derrota (ufa, nos livramos do 7x1), a mesma comemoração ou a mesma tarde diante da televisão. O futebol produz essa espécie de memória coletiva na qual histórias pessoais e acontecimentos públicos se misturam. É nesse ponto que a escola surge como chave interpretativa do espetáculo.
O encerramento contou com a participação do PS22 Chorus, grupo de estudantes de uma escola pública de Staten Island, em Nova York, no momento final, as crianças representaram a continuidade daquilo que o evento pretendia celebrar. Essa participação de uma escola no encerramento também permite compreender que ninguém nasce sabendo assistir a uma Copa. Aprendemos a reconhecer as regras, os jogadores, as seleções, os hinos e os símbolos. Aprendemos com familiares, amigos, professores, narradores e comunidades. E, parando para refletir sobre isso, percebemos que até mesmo a maneira como comemoramos ou lamentamos uma partida é socialmente construída.
Ao final, ficam os parabéns para a Argentina peça taça — não, pera aí, quis dizer Espanha! E, claro, fica a imagem mais provocadora que evoca o emocional e a criticidade em estar na reunião de artistas, músicos, personagens, jogadores históricos e estudantes. Todos ocupando o mesmo espaço e demonstrando que o futebol nunca é apenas futebol.
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