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A escola em tempos líquidos

18 de jul.
4 min de leitura

Vivemos em um tempo escorregadio. As notícias passam rápido, as tecnologias mudam antes mesmo de aprendermos a dominá-las, o trabalho se torna incerto, os vínculos se fragilizam e a vida parece cada vez mais atravessada pela pressa.


Foi para compreender esse tipo de sociedade que o pensador Zygmunt Bauman usou a expressão modernidade líquida. A metáfora é simples: aquilo que é sólido tem forma, peso e duração; aquilo que é líquido escorre, muda de forma e não permanece no mesmo lugar. Para Bauman, a sociedade atual se parece com esse estado líquido: instável, veloz, marcada por relações frágeis, incertezas constantes e dificuldade de construir compromissos duradouros.


Mas, se a sociedade se tornou líquida, a escola não pode abrir mão de oferecer chão. Esse talvez seja um dos maiores desafios da educação contemporânea: ensinar em um mundo disperso, formar sujeitos críticos em uma cultura de respostas imediatas e cultivar vínculos em uma sociedade que transforma quase tudo em consumo, desempenho e descarte.


A escola está no centro dessa travessia. Ela recebe todos os dias crianças, adolescentes, jovens e adultos atravessados por esse mundo instável. Chegam à sala de aula corpos cansados, mentes agitadas, histórias interrompidas e sonhos pequenos demais para a potência que carregam. Diante deles, está o professor: muitas vezes cobrado, pouco ouvido e excessivamente burocratizado, mas ainda responsável por uma das tarefas mais bonitas da vida social — ajudar alguém a ler o mundo.


O professor, em tempos líquidos, é mais do que transmissor de conteúdo. É construtor de sentido. É aquele que segura a pergunta quando todos querem apenas a resposta. É quem ensina que pensar exige tempo, que escutar exige presença e que aprender não é decorar informações, mas transformar a forma de olhar a vida. Em uma sociedade que acelera tudo, o professor insiste na pausa necessária para compreender.


Por isso, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não pode ser vista apenas como um conjunto de competências, habilidades e códigos a serem cumpridos. A BNCC só ganha vida quando encontra a escola real: seus professores, seus estudantes, seus territórios, seus conflitos, suas culturas e suas possibilidades. Formação integral não se faz apenas com documento. Faz-se com prática, escuta, vínculo, conhecimento e compromisso.


Quando a BNCC fala em pensamento crítico, cidadania, cultura, mundo do trabalho, projeto de vida, cooperação e responsabilidade socioambiental, ela nos lembra que educar não é apenas preparar para provas. Educar é preparar para a vida em comum. É formar sujeitos capazes de argumentar, criar, conviver, respeitar diferenças, cuidar do território e participar da sociedade com responsabilidade.


Mas nenhuma dessas palavras se realiza sem o professor. É ele quem transforma currículo em experiência. É ele quem percebe quando uma turma precisa de mais escuta do que conteúdo, quando uma pergunta simples abre caminho para uma grande aprendizagem, quando um problema do bairro pode virar projeto interdisciplinar e quando uma história de vida pode iluminar uma discussão sobre desigualdade, cultura, trabalho ou cidadania.


Também os espaços escolares precisam ser vistos com outros olhos. A sala de aula é importante, mas a escola não cabe apenas entre quatro paredes. O pátio ensina convivência. A biblioteca ensina imaginação. A horta ensina cuidado. A quadra ensina regras e coletividade. O grêmio ensina democracia. A roda de conversa ensina escuta. A feira cultural ensina pertencimento. A comunidade ensina que o conhecimento não nasce distante da vida.


Minha pesquisa sobre economia solidária e autogestão tem mostrado que ninguém aprende democracia apenas ouvindo falar dela. Aprende-se democracia praticando a escuta, a participação, o conflito, a negociação e a responsabilidade coletiva. Isso vale para uma cooperativa, uma associação, uma comunidade e também para a escola. A educação precisa ensinar o comum, porque sem o comum a sociedade se desfaz em ilhas de solidão.


Bauman nos ajuda a compreender o tempo líquido. Mas a escola pode nos ajudar a resistir a ele. Se a sociedade ensina o descarte, a escola pode ensinar o cuidado. Se o mercado ensina a competição, a escola pode ensinar a cooperação. Se as redes sociais ensinam a pressa, a escola pode ensinar a profundidade. Se o mundo insiste em fragmentar os sujeitos, a escola pode reconstruir laços.


É claro que isso exige condições concretas. Não se faz educação transformadora com professores adoecidos, escolas abandonadas, excesso de burocracia e falta de valorização. Não se pode exigir inovação de quem trabalha sem estrutura, nem formação integral de instituições que muitas vezes lutam pelo mínimo. Valorizar a escola é valorizar seus profissionais, seus estudantes e sua função pública.


Ainda assim, todos os dias, há professores criando possibilidades onde quase tudo parece faltar. Há docentes que transformam uma aula em encontro, um texto em descoberta, uma pergunta em caminho e uma dificuldade em aprendizagem. Há escolas que, mesmo feridas pelas desigualdades, continuam sendo lugares de esperança concreta.


Educar em tempos líquidos é criar chão sem aprisionar, vínculos sem sufocar e caminhos sem negar as incertezas. É ensinar os estudantes a navegar em um mundo instável sem perder a capacidade de pensar, sentir, cuidar e agir coletivamente. Quando tudo parece escorrer pelas mãos, a escola continua sendo um dos poucos lugares onde ainda se pode construir sentido. E talvez seja essa a grande beleza da docência: em uma sociedade líquida, o professor continua sendo presença que ajuda a vida a não se dissolver.




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4 comentários


War of Genesis: Idle Loot Wiki
há um dia

Bauman's "liquid modernity" fits what I see in classrooms every day, and the point about teachers building meaning instead of just delivering content really stuck with me. I looked up War of Genesis: Idle Loot Wiki afterward and it made me think more about how fragile our attention has become.

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uno
07 de set.

The idea of students arriving with "interrupted stories and dreams too small" really hit me. I saw that in my own classroom last year and didn't know how to name it. Teaching in these times feels like trying to build a dam in a river, so I found the colony flow idea a useful way to think about how we hold things together for kids.

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krillion
05 de set.

The idea of the school giving students solid ground in a world that changes so fast really hit home for me. I found Krillion useful for thinking about how we can build stronger routines with kids. Teachers doing that work deserve way more support than they get.

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meowdoku
26 de ago.

The idea of the school as solid ground in a liquid world really hit me. Teachers holding the question when everyone wants the answer is something I have seen in real life. Meowdoku helped me think through these ideas more clearly.

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