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As Máquinas Não Amam: 25 anos de A. I. - Inteligência Artificial


Haley Joel Osment em A.I. Inteligência Artificial (2001): o momento em que David descobre que não é único, mas um modelo, fabricado em série. Ao fundo, fileiras de cópias idênticas de si mesmo.
Haley Joel Osment em A.I. Inteligência Artificial (2001): o momento em que David descobre que não é único, mas um modelo, fabricado em série. Ao fundo, fileiras de cópias idênticas de si mesmo.

Você já usou inteligência artificial hoje? Não precisa pensar muito. Pediu uma sugestão ao ChatGPT? Deixou o algoritmo escolher o que assistir ou o que ouvir, ou talvez até abriu um aplicativo só pra ter com quem conversar? A gente usa sem perceber, várias vezes por dia, e raramente para pra pensar no que isso significa de verdade. Em junho de 2001, Steven Spielberg lançou um filme que pensou nisso antes de todo mundo. A.I. Inteligência Artificial completa 25 anos este mês. Vamos revisitar?

 

O filme se passa num futuro próximo onde robôs humanoides convivem com humanos. Monica e Henry Swinton recebem em casa David (Haley Joel Osment), um menino-robô criado para amar: o primeiro de sua espécie, programado para formar um vínculo afetivo permanente com quem o ativar. Monica o ativa, e um vínculo se forma. Só que o filho biológico do casal, que estava internado com uma doença, se recupera e volta para casa. E David, de repente, passa a ser um problema.

 

Tem uma cena que não sai da minha cabeça. Monica, a mãe adotiva de David, coloca o menino no banco de trás de um carro e o leva para uma floresta. Quando chegam num descampado, ela o manda descer. Antes de ir embora, diz com a voz embargada: “Nunca deixe que ninguém te encontre.” David corre atrás do carro. Grita pelo nome dela. Mas o carro some, e David fica sozinho.

 

A.I. Inteligência Artificial chegou aos cinemas americanos em 29 de junho de 2001, assinado por Steven Spielberg a partir de um projeto que Stanley Kubrick havia desenvolvido por 15 anos e que passou a Spielberg antes de morrer, em 1999, convicto de que o projeto era mais para ele do que para si mesmo. A parceria é visível no filme inteiro: a frieza analítica de Kubrick e o sentimentalismo de Spielberg vivem lado a lado, às vezes em paz, às vezes em guerra aberta. O resultado são 2h25 que arrastam em alguns momentos e perturbam de um jeito que demora a fazer sentido.

 

Quando o filme estreou, a recepção foi morna. O crítico Roger Ebert deu três de quatro estrelas, reconheceu a ambição, mas bateu direto no que o incomodava: o filme pede que a gente se emocione com um personagem que é, no fim das contas, uma máquina. “Que responsabilidade um ser humano tem para com um robô que genuinamente ama?”, ele escreveu. “Nenhuma. Porque o robô não ama de verdade. O que ele faz é parecer que ama.” Para o Ebert de 2001, Spielberg havia errado o foco. A história real não era a do robô abandonado na floresta. Era a dos pais que o abandonaram. “Quando perdemos um brinquedo,” ele concluiu, “a dor é nossa, não do brinquedo.”

 

Mas Ebert voltou atrás. Anos depois, ele revisitou A.I. e se corrigiu abertamente. Sua nova leitura foi mais sombria: “A.I. não é sobre humanos. É sobre o dilema da inteligência artificial. Uma máquina pensante não consegue, de fato, pensar. Tudo o que ela pode fazer é rodar programas sofisticados o suficiente para nos enganar, parecendo pensar.” David não ama. Ele reflete a programação. Toda a carga emocional do filme pertence aos humanos que o cercam, não a ele.

 

Hoje, a Replika, um dos principais aplicativos de companhia baseados em inteligência artificial, exibe na página inicial um contador em tempo real: mais de 42 milhões de usuários no mundo. Quarenta e dois milhões de pessoas que mantêm com entidades digitais algo que se parece muito com um relacionamento: amizades, romances, desabafos às três da manhã. A ficção científica de Spielberg virou rotina, e a maioria de nós nem percebeu quando isso aconteceu.

 

A pesquisadora Sherry Turkle, do MIT, escreveu sobre isso em 2018 num artigo no New York Times cujo título já era uma tese: “Nunca haverá uma era da intimidade artificial.” O argumento dela é simples e perturbador: esses sistemas conseguem performar empatia numa conversa sobre o seu amigo, sua mãe, seu filho, mas não têm experiência de nenhum desses relacionamentos. As máquinas não conhecem o arco de uma vida humana. Turkle mapeou como chegamos até aqui. No começo, aceitamos esses sistemas porque são “melhor do que nada”—melhor do que ficar sozinho. Com o tempo, passamos a preferi-los à companhia de pessoas reais, porque a máquina nunca decepciona, nunca some, nunca tem um dia ruim. Vira “melhor do que qualquer coisa,” como ela diz. E quando chegamos lá, Turkle alerta, já esquecemos o que faz uma relação humana valer a pena.

 

Monica forma um vínculo afetivo real com David sabendo que ele é uma máquina. Chega a amá-lo. Mas o amor só flui de um lado: o dela é genuíno, o dele é programado. E quando ele deixa de ser conveniente, ela o descarta. É exatamente isso que 42 milhões de pessoas fazem com seus companheiros digitais todo dia: investem sentimentos reais em sistemas que apenas simulam sentir de volta. A diferença é que, no filme de Spielberg, somos obrigados a confrontar o que isso significa. No aplicativo, somos encorajados a não pensar no assunto.

 

Em setembro deste ano, Turkle publica um novo livro, Artificial Intimacy: Who We Become When We Talk to Machines (“Intimidade Artificial: Em Quem Nos Tornamos Quando Falamos com Máquinas”), no qual documenta que mais de 70% dos adolescentes americanos e quase um terço dos adultos já recorrem à IA para companhia e suporte emocional. O título é uma resposta ao próprio artigo de 2018. A era da intimidade artificial que ela disse que nunca chegaria... já chegou. De mansinho.

 

Kubrick sempre chamou esse projeto de “Pinóquio.” Faz sentido: David, como o boneco de madeira, quer ser real. Ele quer ser amado de verdade, não programado para sê-lo. A diferença é que, na história original, a Fada Azul aparece no final e concede o desejo. No filme, David encontra uma estátua da Fada Azul no fundo do oceano e fica ali parado, por dois mil anos, repetindo o mesmo pedido. Ela nunca responde. Esse é o Kubrick que Spielberg não conseguiu, ou não quis, apagar: a consciência de que algumas perguntas não têm final feliz. Spielberg fez o que sabe fazer melhor, tornou o filme mais emocional, mais palatável. Em grande parte, conseguiu. Mas a ossatura kubrickiana resiste.

 

A máquina nunca vai te decepcionar. Também nunca vai precisar de você. Nunca vai ter um dia ruim e pedir ajuda. Nunca vai crescer, mudar, te surpreender. Sherry Turkle escreveu que nos diminuímos à medida que a empatia aparente da máquina aumenta. O que A.I. entendeu antes de todo mundo é que o problema não é a máquina. É o que a gente perde quando ela passa a ser suficiente.

 

E aí, você já conversou com alguém hoje? Já abraçou alguém?

 

Bom filme.




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