Ouvir em 2x. Viver em 4x.
- Everton Viesba

- 9 de mai.
- 4 min de leitura
Existe uma lógica curiosa na relação com o tempo. Discuti isso com um queriDinho amigo Libanês na última semana — perdoe a brincadeira, é um trocadilho com seu apelido. Bom, sem desviar do foco: sentados na varanda de casa, conversando enquanto a feijoada ficava pronta, conversamos sobre vários assuntos e ele, o tempo, foi um deles. É curioso como uma tarde ensolarada no sábado passa mais rápido do que uma segunda-feira no trânsito das 17h.
Naturalmente, a mesma lógica pode ser aplicada por uma pessoa que se delicia com água de coco na praia e outra que se senta sobre um formigueiro — a percepção de tempo de cada uma muda. E como muda!
Hoje, quase todo mundo acredita estar economizando vida ao acelerar tudo. Áudios em 2x, vídeos resumidos, respostas rápidas no WhatsApp. Até as leituras estão fragmentadas. A sensação é de eficiência, de vantagem e controle. Mas talvez estejamos apenas reproduzindo, no cotidiano digital, a mesma ilusão de quem pisa mais fundo no acelerador acreditando que chegará muito antes ao destino.
Na física do trânsito, essa percepção já foi amplamente discutida. Em deslocamentos urbanos e rodoviários, aumentar significativamente a velocidade raramente produz um ganho proporcional de tempo. Um motorista que trafega a 120 km/h em uma via de 100 km/h ou 80 km/h frequentemente reduz apenas poucos minutos do percurso total, especialmente quando existem semáforos, curvas, fluxo irregular ou trechos de desaceleração. O ganho real costuma ser muito pequeno. O risco, porém, cresce de forma exponencial, afinal a distância de frenagem aumenta e o tempo de reação diminui. Então, a chance de colisão se amplia violentamente...
A vida contemporânea parece ter importado essa mesma lógica para dentro da experiência humana. Aceleramos a escuta para ganhar segundos, talvez minutos. E, nesse processo, começamos a perder justamente aquilo que transforma uma voz em presença humana. Porque ninguém fala apenas por informação, né? A voz carrega hesitações, silêncios, pausas involuntárias, pequenas mudanças de ritmo, respirações interrompidas, cansaços escondidos entre frases banais. Existe uma humanidade inteira habitando aquilo que não está dito propriamente nas palavras. Quando colocamos alguém em velocidade 1,5x ou 2x, não comprimimos apenas o tempo, comprimimos nuances emocionais.
Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (Ed. Vozes, 2015, 136 p.), descreve uma época marcada pela hiperatividade permanente e pela incapacidade de sustentar repouso contemplativo. O excesso de desempenho transforma o sujeito em operador contínuo de si mesmo, isto é, a lógica da produtividade invade até os espaços antes destinados ao encontro humano. Não, não descansamos verdadeiramente, quando paramos no sofá ou no banheiro e pegamos o celular, estamos apenas alternando os formatos de aceleração.
Algo semelhante aparece em A Sociedade da Transparência (Ed. Vozes, 2016, 120 p.), quando o filósofo aponta como a velocidade contemporânea elimina zonas de profundidade, ambiguidade e demora. Tudo precisa ser imediatamente acessível, imediatamente compreensível, imediatamente consumível. O problema é que relações humanas nunca funcionaram nessa lógica industrial de processamento rápido. Talvez por isso tantas conversas tenham se tornado estranhamente vazias apesar da hiperconectividade constante. Falamos o tempo inteiro, ouvimos o tempo inteiro e, ainda assim, cresce a sensação de ausência. O outro chega até nós filtrado pela ansiedade da próxima tarefa, o escutamos para concluir a nossa tarefa de ouvir e não para permanecer em contato.
Em A Corrosão do Caráter (Ed. Record, 1999, 208 p.) Richard Sennett já observava como o capitalismo flexível reorganizou a experiência do tempo, fragmentando vínculos duradouros e enfraquecendo processos lentos de construção subjetiva. O indivíduo contemporâneo aprende a adaptar-se rapidamente, mas perde estabilidade emocional e a continuidade da narrativa. Tudo precisa ser ágil, inclusive os afetos. Bauman também reflete sobre isso em Modernidade Líquida (Ed. Zahar, 2021, 280 p.). Essa obsessão pela otimização contaminou até a forma como aprendemos. Cursinhos pré-vestibulares, coachs e formadores incentivam os estudantes a assistirem aulas aceleradas. Professores disputam atenção com plataformas desenhadas para interromper concentração. Os livros são resumidos em áudios books 15 minutos... A leitura longa, então, começa a parecer improdutiva, afinal, quem quer perder tempo com um calhamaço de Herman Melville em Moby Dick (Ed. Cosac & Naify, 2008, 656 p.).
Em O Desaparecimento dos Rituais (Ed. Vozes, 2021, 160 p.), Han argumenta que a sociedade contemporânea destrói práticas de permanência e repetição que organizavam simbolicamente a experiência humana. Sem pausas reais, sem rituais de convivência, sem lentidão compartilhada, a vida perde densidade emocional. Tudo escorre rapidamente sem deixar sedimentação interior. Talvez seja exatamente isso que aconteça quando aceleramos vozes constantemente no WhatsApp, parece que ganhamos tempo, mas o que se perde é a espessura humana. Tão logo, estaremos em uma conversa na igreja, no bar ou na feira e não teremos paciência para ouvir a vizinha que precisa nos atualizar da fofoca da vez.
Não parei para calcular, mas suponho que um suspiro deixa de existir em 2x. Uma pausa emocionada certamente perde intensidade e a hesitação carregada de insegurança transforma-se em ruído descartável. A respiração cansada da pessoa do outro lado já não cabe no nosso cronograma comprimido. O áudio acelerado cria uma espécie de amputação sensível da conversa.
Jonathan Crary, em 24/7 (Ed. Ubu, 2016, 144 p.) discute como o capitalismo contemporâneo tenta eliminar qualquer intervalo improdutivo da existência. Dormir, esperar, contemplar e desacelerar tornam-se obstáculos para uma lógica econômica baseada em fluxo contínuo de atenção e consumo. Há poucas décadas, inventavam-se remédios que nos mantinham acordados por mais tempo. Pode ser que o botão 2x seja apenas uma versão banalizada dessa racionalidade mais profunda: a incapacidade crescente de tolerar qualquer experiência alheia que não produza rendimento e satisfação imediatos.
O mais curioso é que o “ganho de tempo” quase nunca corresponde à ansiedade que sustenta essa corrida, economizam-se poucos minutos ao acelerar dezenas de áudios ao longo do dia e em compensação, perde-se gradualmente a capacidade de escutar o outro em sua duração humana real.
A física do trânsito ensina que aumentar velocidade além de certo ponto amplia perigos sem alterar substancialmente o tempo final da viagem. A vida talvez possa ensinar algo parecido: nem toda aceleração representa avanço real, às vezes, estamos apenas nos expondo mais, desgastando mais as relações e chegando emocionalmente mais vazios ao mesmo destino.
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