Da estrada à pista de dança: 35 anos de Thelma & Louise
- Raphael Rosalen
- 2 de mai.
- 4 min de leitura

Ao longo de 2025, investigamos nesta coluna a vertigem do presente, da cultura do imediato à invasão da inteligência artificial em nosso cotidiano. Para 2026, propus que usássemos o cinema como régua para medir o quanto o mundo mudou. Em maio, Thelma & Louise completa 35 anos. Mas o mais notável não é o aniversário: é o fato de que o filme ainda provoca, em 2026, as mesmas reações que provocou quando estreou.
Los Angeles, maio de 2026. A cidade ainda processa a ressaca do Coachella, um festival que este ano decidiu transformar o deserto de Indio num altar para a liberação feminina. Mas vamos por partes.
Em 24 de maio de 1991, Thelma & Louise, dirigido por Ridley Scott a partir do roteiro original de Callie Khouri, estreou nos cinemas americanos, tendo passado antes pelo Festival de Cannes. A história é ao mesmo tempo simples e devastadora: Thelma (Geena Davis), dona de casa sufocada, e Louise (Susan Sarandon), garçonete pragmática, partem em uma viagem de carro que vira fuga depois que Louise mata o homem que tentou estuprar a amiga num estacionamento. A partir daí, o sudoeste americano, com seus desfiladeiros, estradas intermináveis e o céu laranja do Grand Canyon, vira o cenário de uma das evasões mais emblemáticas da história do cinema.
Comercialmente, o filme arrecadou US$ 45 milhões só nos Estados Unidos, uma façanha considerável para uma produção que não cabia em nenhuma caixinha do mercado. A crítica foi um campo de batalha: o New York Times celebrou o talento até então inexplorado de Ridley Scott para a comédia exuberante e para as imagens americanas vibrantes; outros veículos o classificaram de “neo-fascista” e “degradante para os homens”. Em junho de 1991, a TIME colocou Sarandon e Davis na capa com a chamada "Why Thelma & Louise Strikes a Nerve" ("Por que Thelma & Louise toca um nervo"), uma das capas mais icônicas da história da revista. No ano seguinte, Khouri foi ao palco do Oscar como a primeira roteirista solo a conquistar a categoria de Melhor Roteiro Original. A Academia tentou tratá-lo como ficção, mas o mundo sabia que não era.
Além de Sarandon e Davis em performances definidoras de carreira, o elenco reservava uma surpresa jovem: um Brad Pitt de 27 anos que aparecia por poucos minutos com chapéu de caubói e sorriso de aluguel, e roubava cada frame em que estava, revelando ao grande público uma das carreiras mais longas de Hollywood. A maestria de Ridley Scott estava justamente nisso: transformar cada elemento em cena numa lembrança permanente. O filme subverteu de forma deliberada o que a crítica britânica Laura Mulvey havia chamado de male gaze, o olhar masculino que historicamente objetificava a mulher no cinema clássico americano. Em Thelma & Louise, é Brad Pitt quem existe como espetáculo; são as duas protagonistas quem portam o olhar. Ao apropriar-se da linguagem do road movie (filme de estrada), gênero historicamente masculino, de Easy Rider a Butch Cassidy, e colocar duas mulheres no volante, o filme não apenas inverteu uma convenção. Ele desafiou a arquitetura inteira do cinema americano.
O que nos traz, inevitavelmente, a 2026 e ao Coachella. Sabrina Carpenter foi uma das headliners do festival com um espetáculo que era show pop e teatro cultural ao mesmo tempo. No primeiro fim de semana, Susan Sarandon entrou em cena de surpresa, num carro vintage, num drive-in improvisado no meio da arena, e de peruca loura: Louise convocada do passado para o deserto da Califórnia. No segundo fim de semana, Geena Davis ocupou o mesmo banco do motorista, completando o tributo: Thelma e Louise reunidas simbolicamente em uma das cenas mais comentadas do festival. Por mais que a crítica tenha chamado o interlúdio de desconcertante e um freio de mão no meio do show, o tributo reuniu simbolicamente Thelma e Louise diante de uma geração inteira que nem havia nascido em 1991. E então Madonna entrou em cena.
Madonna, que há mais de quatro décadas milita no pop, apareceu no Coachella usando o mesmo figurino de sua apresentação de 2006, a era do seu disco Confessions on a Dance Floor, para anunciar Confessions II, seu décimo quinto álbum de estúdio, previsto para julho de 2026. O primeiro single, "I Feel So Free" (“me sinto tão livre”), é exatamente o que o título promete: uma declaração de liberdade em deep house, com Madonna narrando a criação de uma nova versão de si mesma na pista de dança. A colaboração com Sabrina Carpenter, "Bring Your Love" ("traga o seu amor"), lançada em 30 de abril, conecta três gerações de mulheres que recusam as fronteiras que o mercado insiste em impor.
A linha que une Thelma & Louise a Confessions II é mais direta do que parece. Em 1991, a liberdade feminina foi representada como uma estrada sem retorno: bela, impossível, que terminava no Grand Canyon. Trinta e cinco anos depois, a metáfora mudou de endereço: a pista de dança substituiu a rodovia do sudoeste. Mas a resistência é a mesma. O que os algoritmos fazem hoje, dominando a cultura, ditando como mulheres devem envelhecer, o que devem performar, quando devem desaparecer da tela, não é tão diferente do que os homens ao redor de Thelma e Louise faziam naquele filme: impor uma identidade de fora para dentro, sem espaço para negociação. Madonna, ao dizer "I Feel So Free" em 2026 é Thelma e Louise pisando fundo no acelerador em 1991. A frase muda, mas a intenção é a mesma.
A diferença é que, em 2026, as "foragidas" têm pista de dança, microfone e 35 anos de estrada nas costas. E não têm a menor intenção de parar o carro.
Bom filme.

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