A paz mundial começa no trocador de fraldas
- Marilena Rosalen

- há 6 dias
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Na última semana, uma orientanda (Debora Fogli) de mestrado da Universidade Federal de São Paulo, campus Diadema - Pecma, passou pelo exame de qualificação, e durante sua fala apareceu a frase: “A paz mundial começa no trocador”, que é atribuída à pediatra húngara Emmi Picker (1902-1984) – uma das referências da sua dissertação.
O sentido da frase é que a construção do adulto começa na forma como o bebê é cuidado (troca, alimentação e banho) em seus primeiros meses e anos de vida. Ou seja, para Picker, o vínculo estabelecido entre o bebê e seu cuidador, seja em casa ou em uma instituição escolar, precisa ser de confiança, de segurança afetiva. Os cuidados devem transmitir afeto e serem realizados com atenção plena com o cuidador olhando para o bebê, conversando com ele e não de forma mecânica. Estas ações favorecem o desenvolvimento de adultos mais seguros, mais calmos, com maior autonomia, mais propensos ao diálogo e menos propensos à agressividade.
Desta forma, é possível afirmar que as orientações de Pikler são altamente recomendadas para o alcance da cultura de paz, que é tema do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) n. 16 da Agenda 2030 da ONU - a promoção de sociedades pacíficas. Mas e quando o bebê ou a criança pequena cresce em um ambiente de práticas de cuidado que são mecanizadas e apressadas, sem comunicação visual e verbal? A psicóloga Anna Tardos denomina essas práticas de “doces violências”, pois podem gerar atraso no desenvolvimento emocional, inseguranças e memórias negativas que podem levar à ansiedade e outros desafios psicológicos.
Infelizmente, a abordagem Pikler ainda é pouco utilizada nos berçários e na educação infantil do Brasil e o cuidado pedagógico poderia ser mais praticado. De forma geral, pais e responsáveis se preocupam mais com a aprendizagem da leitura e da escrita e valorizam menos a educação integral da criança até 5-6 anos. Daí se iniciam os nove anos do ensino fundamental – novos desafios.
Um dos maiores desafios atuais tem sido a promoção de uma cultura de paz no ambiente escolar – ODS 16, ou seja, sem violência, sem bullying, sem preconceito, sem discriminação. E como professora de Didática, tenho sido questionada de como o professor pode conseguir isto nas aulas – tem se dado o nome técnico de “gestão de conflitos em sala de aula”.
Em sala de aula, os conflitos podem ser estabelecidos nas relações aluno-aluno e professor-aluno. No primeiro tipo, aparecem as agressões física e verbais. No segundo, podem ser: agressão verbal; alunos que não participam de atividades; desrespeito às regras, como uso de celular, uso de boné, atrasos recorrentes, porte de objetos perigosos, uso de álcool e drogas e etc.
O pedagogo Libâneo (1994) aponta que os professores podem gerir os conflitos por meio de diálogo e de respeito mútuo, e isto pode influenciar a qualidade do ensino e o bem-estar dos alunos, criando um ambiente harmonioso e mais cooperativo.
Pesquisa realizada por Ferreira (2025) mostrou que a adoção de metodologias ativas favorece o desenvolvimento da autonomia dos alunos e das habilidades de mediação e gestão dos professores, favorecendo um ambiente propício para a resolução de conflitos. Assim, é possível inferir que a gestão de conflitos em sala de aula depende da abordagem do processo de ensino e aprendizagem adotada pelo professor. Em outras palavras, um professor que adota uma abordagem tradicional, que se caracteriza por um relacionamento professor-aluno autoritário, com pouco ou sem diálogo, teria mais dificuldades na gestão de conflitos, uma vez que esta demanda diálogo.
Em seus estudos e propostas, a Didática considera as três dimensões do processo de aprendizagem, a saber: humana; político-social; e técnica. Geralmente, quando se pensa em Didática, o primeiro pensamento é sobre a dimensão técnica – o processo intencional, com objetivos delineados, seleção cuidadosa de conteúdos, estratégias e avaliação, organizando e desenvolvendo um plano de aula, de ensino. Mas também se considera a dimensão político-social - o território da escola, sua história, as políticas governamentais e as diretrizes educacionais que afetam a escola; por último, mais importante e às vezes esquecida, a dimensão humana, pois é possível apontar que o clima afetivo formado entre alunos e professores é responsável, em grande parte, pelo sucesso da aprendizagem. Daí a valorização da empatia, do respeito mútuo, do diálogo, da escuta ativa – uma Didática humanizada para a gestão de conflitos e o alcance da cultura de paz, desde o trocador de fraldas.
Assim, pensar a cultura de paz no contexto escolar implica reconhecer que a gestão de conflitos não se restringe a técnicas ou normas disciplinares, mas se constitui como parte do próprio processo educativo, desde o berçário. Da forma que a fralda é trocada a como professores e estudantes se relacionam, dialogam e enfrentam tensões cotidianas contribui diretamente para a formação de sujeitos mais empáticos, responsáveis e capazes de conviver com as diferenças. Portanto, a Didática humanizada reafirma o cuidado, a escuta e o respeito mútuo como fundamentos da aprendizagem e da convivência, indicando que a construção de sociedades mais pacíficas começa nos pequenos gestos de atenção e vínculo, desde o trocador de fraldas, e se prolonga nas relações que se estabelecem ao longo de toda a trajetória escolar.
Referências:
FERREIRA, Edilson Trancoso. Gestão da sala de aula e metodologias ativas: transformações no fazer docente. Educação & Inovação, [S. l.], v. 1, n. 1, p. 1–11, 2025. Disponível em: https://educacaotecnologica.com.br/index.php/ojs/article/ view/5. Acesso em: 25 fev. 2026. LIBÂNEO, José Carlos. Didática. 2. Ed. São Paulo: Cortez, 1994.
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