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Ler sons, escutar imagens: a nova experiência do clássico

Há uma decisão que tenho tomado de tempos em tempos. Bem dessas que não cabem muito bem nas planilhas da vida adulta... Entre pagar a conta de água, ali na faixa dos cento e poucos reais, e comprar um ingresso para um concerto, tenho optado pelo que qualquer manual de responsabilidade chamaria de imprudência. A água pode esperar alguns dias. Beethoven, não. Óbvio, não é exatamente uma escolha racional, beira um desvio. Um gesto necessário de desobediência que diz, em silêncio ou ao som de cordas, que viver não pode ser apenas pagar contas. Afinal, há algo de profundamente humano em sentar-se diante de uma orquestra e perceber que certos sons atravessam o tempo.


Talvez por isso me cause espanto perceber que, ao contrário do que tanto se repete e do que eu também imaginava, as clássicas não estão morrendo. Um relatório global recente, o Classical Pulse 2026, produzido pela série de concertos Candlelight, analisou hábitos de mais de oito mil pessoas em dez países e apontou um dado que desloca essa narrativa: no Brasil, 96% dos jovens das gerações Z e Millennials que já tiveram contato com concertos assistiram a pelo menos uma apresentação no último ano. Perceba que não é um público ocasional, há presença e vínculo!


Todavia, esses jovens não chegam necessariamente pelo mesmo caminho que as gerações anteriores. Eles encontram o clássico nas redes, em formatos visuais, em experiências que misturam luz, espaço e narrativa. O concerto, entendido por muitos como apenas escuta, passa a se tornar vivência. Trago estas questões porque o relatório me trouxe incômodos e me fez perceber que é necessária uma revisão de certas certezas. Talvez o problema não seja só o interesse ou a falta deste, mas a maneira como o acesso é mediado. Durante muito tempo, as obras clássicas foram apresentadas como algo distante, inacessíveis, cercadas por códigos que mais afastavam do que convidavam. A internet e a tecnologia estão diminuindo essas distâncias.


Ainda assim, há um limite que nenhuma reinvenção estética resolve sozinha. O preço e a distância. A ausência de políticas consistentes de democratização cultural nos leva a crer que não existe interesse. Ele existe, mas esbarra em barreiras muito concretas e, para muitos, o concerto continua sendo uma experiência improvável. E aqui a minha pequena imprudência doméstica ganha outra camada de sentido. Se para quem já está inserido em certos circuitos e quem está crescendo profissionalmente o ingresso pesa, imagine para quem sequer tem um teatro próximo, ou para quem precisa escolher entre transporte, alimentação e qualquer forma de acesso à cultura.


A Nona de Beethoven pode, sim, valer duzentos reais. E vale bem mais se considerarmos o que ela mobiliza. Mas há uma pergunta necessária: quem pode ouvi-la? E onde? Porque uma obra dessa dimensão não pode permanecer restrita a poucos espaços e a poucos corpos. É verdade que as plataformas digitais ampliaram o alcance de forma inédita. Hoje, qualquer pessoa com acesso à internet pode ouvir Beethoven em serviços como Spotify, Deezer ou YouTube. A democratização é inegável nesse movimento, as clássicas já não dependem exclusivamente de salas de concerto para existir. Todavia, o presencial e ao vivo muito deixa escapar à reprodução gravada. A vibração do arco na corda, o sopro que atravessa o instrumento, o silêncio coletivo que antecede o primeiro acorde, ações ao vivo que mostram que a música não é apenas som, é presença e corpo. E essa experiência ainda não foi democratizada na mesma medida que o acesso digital.


Escutar Beethoven no fone de ouvido é uma porta de entrada, estar diante de uma orquestra é atravessar essa porta. E entre uma coisa e outra existe um abismo que não deveria ser determinado por renda, localização ou oportunidade. Se o digital amplia o alcance, cabe às políticas culturais ampliar o encontro. Porque não basta que a música esteja disponível, é preciso que ela seja vivida.


Voltando à pesquisa, o que percebemos é que antes um concerto era um exercício de contenção, um corpo sentado, imóvel, em silêncio disciplinado, e hoje ele se aproxima de outra lógica. Agora, as experiências fazem o corpo participar como presença física desfrutando de sensor, luz, temperatura, proximidade, deslocamento do olhar. Experiências como o DroneArt Show: Four Seasons tensionam isso de forma explícita, a música de Antonio Vivaldi que já causa arrepios e emoções ao ser ouvida passa a ser acompanhada por coreografias de luz no céu que, agora, também fazem os olhos brilharem.


Algo semelhante ocorre com o Candlelight Concert Series. Concertos em espaços históricos ou íntimos, como no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, mencionado em artigos anteriores, são iluminados por milhares de velas que criam uma ambiência que reposiciona o espectador. A música clássica aparece ao lado de trilhas de cinema, arranjos de rock, canções românticas que atravessaram décadas.


Essa transformação dialoga com algo que Jorge Larrosa desenvolve ao tratar da experiência (leia: “Notes on experience and the knowledge of experience”). Para o autor, não basta que algo aconteça; é preciso que nos aconteça. A experiência não está no evento em si, mas no modo como ele nos atravessa, nos afeta e nos transforma. Esses novos formatos parecem apostar justamente nisso.


Paralelo a esse movimento, há outro deslocamento importante na mediação cultural. Se antes o acesso ao clássico passava por instituições muito específicas, hoje ele atravessa o digital de maneira decisiva. O primeiro contato de muitos jovens com Beethoven ou Hans Zimmer não ocorre em uma sala de concerto, mas em um vídeo curto nas redes sociais, em uma trilha que acompanha uma cena de filme e nos recortes que viralizam.


O algoritmo passou a disputar lugar que antes era dominado por professores, curadores, produtores culturais e, hoje, sugere, repete e amplia. Um trecho de sinfonia pode aparecer ao lado de uma trilha de cinema, que aparece ao lado de uma releitura contemporânea. Há uma reorganização silenciosa do que se escuta e de como se chega até isso. Isso não é neutro, como lembra Shoshana Zuboff, a primeira percepção é de que as plataformas apenas distribuem conteúdos, mas na verdade elas organizam comportamentos e orientam escolhas, o que chega ao usuário é resultado de filtros, interesses e padrões de consumo.


Apesar de perigoso, e aqui abrindo margem para textos futuros sobre algoritmos, percebemos que tem lá sua importância esse processo de acessibilidade à música clássica que deixa, aos poucos, de depender exclusivamente de trajetórias formais para alcançar novos públicos. Talvez estejamos diante de uma reconfiguração que não elimina as tensões, mas que abre frestas. Velas, drones e telas se mesclam à música clássica em novos caminhos.


Mas, claro, não cabe aqui a apresentação de respostas, mas inquietações. E todo esse movimento demonstra um paradoxo triste e cruel, nunca houve tanto interesse e tanta circulação das músicas clássicas no cotidiano, e, ainda assim, o acesso continua sendo um privilégio de poucos.




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