O século XXI talvez esteja desaprendendo a pensar
- Everton Viesba

- 14 de mar.
- 4 min de leitura
Há poucos anos, no auge da popularização do Google, as pessoas chegavam ao campo de busca e digitavam perguntas começando sempre do mesmo modo: “como fazer…”. O algoritmo, já treinado pelas inquietações humanas, completava rapidamente as sugestões: Como fazer arroz soltinho; Como fazer um bom sexo; Como fazer a prova da baliza; Como fazer currículo; Como fazer um bolo de cenoura com calda gostosa...
Como, como, como. Aquilo já parecia espantoso. Pela primeira vez na história, uma pessoa podia dirigir uma dúvida ao vazio digital e receber pistas imediatas de resposta. A necessidade da busca em longas enciclopédias, livros ou mesmo o ato mais genuíno e puro de perguntar a alguém, começou a se perder. Ainda assim, havia um pequeno ritual intelectual envolvido nesse processo. Era preciso abrir um site, comparar explicações, desconfiar de receitas mal escritas, testar orientações contraditórias. Muitas vezes era necessário rolar a página, clicar na segunda, terceira ou quarta opção, até encontrar algo que realmente fizesse sentido. A busca não era apenas técnica; era também interpretativa. Entre links mal diagramados, blogs pessoais e portais especializados, o leitor precisava exercer um mínimo de julgamento, quase como quem tateia uma biblioteca sem bibliotecário. Não era exatamente a experiência de entrar em A Biblioteca de Babel (Ed. Reclam Philipp Jun. 2010, 159 p.), de Jorge Luis Borges, mas já havia ali a sensação de excesso, labirinto e escolha.
Essa etapa intermediária tinha um valor silencioso. Ela obrigava o usuário a ler, comparar, selecionar, descartar. Nem sempre a primeira resposta era a melhor, nem sempre a explicação mais bem posicionada era a mais correta. Havia, portanto, uma pequena fricção cognitiva. O conhecimento não vinha pronto; ele precisava ser montado como um quebra-cabeça improvisado entre várias páginas abertas no navegador. Esse gesto, mesmo apressado, ainda preservava algo que Umberto Eco defendia em Como se Faz uma Tese (Ed. Perspectiva, 2020, 224 p.), o conhecimento não nasce do encontro com uma resposta única, mas do trabalho de reunir vestígios, confrontar fontes e desconfiar da solução fácil.
Talvez por isso aquele Google inicial, com todas as suas limitações, ainda mantivesse uma espécie de pedagogia involuntária da busca. O usuário era obrigado a separar o útil do duvidoso, a reconhecer diferenças de qualidade, a perceber que duas páginas podiam afirmar coisas opostas com a mesma segurança. Era uma experiência menos confortável, mas intelectualmente mais exigente. Em algum grau, ainda nos pedia aquilo que Hannah Arendt valorizava em A Vida do Espírito (Ed. Civilização Brasileira, 2020, 623 p.) a interrupção do automatismo para que o pensamento pudesse, ainda que por instantes, examinar o mundo antes de apenas reagir a ele.
Hoje essa fricção começa a desaparecer, embora a pergunta continue sendo feita, o percurso entre a dúvida e a resposta foi drasticamente encurtado. Em vez de atravessar uma paisagem de textos, o usuário recebe um bloco único de explicação, muitas vezes apresentado com aparência de síntese definitiva. O gesto de buscar começa a se transformar em algo mais próximo de pedir.
A nova onda de aplicativos baseados em inteligência artificial radicalizou esse movimento. Em vez de indicar caminhos, essas ferramentas produzem respostas completas, já não se trata mais de procurar um texto, mas de receber um pronto. Em poucos segundos, uma pergunta gera um parágrafo, um roteiro, uma explicação técnica, uma análise resumida. O mecanismo que antes organizava informações agora parece capaz de produzir a própria informação.
Isso muda profundamente a relação entre dúvida e pensamento. Durante séculos, fazer uma pergunta implicava um processo de investigação, ainda que modesto. Livros eram consultados, textos comparados, ideias confrontadas. E é justamente aí que mora a questão. Quando Nicholas Carr publicou Superficiais: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros (Ed. Agir, 2019, 150 p.), o alerta era sobre a leitura fragmentada, a atenção rompida e a dificuldade crescente de sustentar concentração. Agora, talvez estejamos entrando em uma etapa posterior, mais delicada: não apenas lemos aos pedaços, como começamos a pensar por delegação.
Mesmo na era inicial da internet, havia um percurso entre a pergunta e a resposta, mas a inteligência artificial reduz esse caminho a quase nada. O problema não está apenas na velocidade, mas na forma da resposta. Muitas vezes ela chega simplificada demais, comprimida em poucos parágrafos, apresentada com segurança retórica mesmo quando contém imprecisões. A resposta parece clara, organizada e convincente, mas pode esconder lacunas, generalizações ou interpretações frágeis. Ainda assim, a aparência de completude costuma ser suficiente para encerrar a busca. Byung-Chul Han, em No Enxame (Ed. Vozes, 2018, 116 p.), já percebia que a vida digital produz um ambiente saturado de impulsos, fragmentos e estímulos simultâneos. Nesse ambiente, pensar deixa de ser um mergulho e passa a ser uma reação em superfície.
A consequência cultural desse processo ainda está sendo medida, mas certamente já observamos vários impactos. Se antes era necessário navegar entre várias fontes para construir uma resposta aproximada, agora cresce a tentação de aceitar a primeira formulação gerada pela máquina. A pergunta deixa de ser o início de uma investigação e passa a ser apenas o gatilho de uma resposta automática.
Com isso, algo curioso começa a acontecer. O gesto de perguntar permanece, mas o exercício de pensar entre a pergunta e a resposta vai sendo progressivamente reduzido. A tecnologia resolve o “problema” com eficiência impressionante, o que ainda não sabemos é o que acontece com a mente humana quando esse intervalo, antes ocupado por leitura, comparação e dúvida, simplesmente desaparece.
Em minha análise, o real problema é quando a pergunta deixa de ser o início do pensamento e passa a ser apenas o botão que aciona uma resposta automática, talvez estejamos diante de algo mais sério do que uma revolução tecnológica. Talvez estejamos assistindo ao lento desaparecimento de uma das atividades mais humanas que já inventamos: parar, duvidar e pensar.
.png)

Comentários