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Mulheres não cabem só em março

Atualizado: 3 de abr.

Março termina com números que não cabem em nenhuma campanha. No Brasil, uma mulher é vítima de feminicídio a cada cinco horas. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em média, quatro mulheres são assassinadas por dia; números que se repetem com uma regularidade brutal, atravessando dias comuns, finais de semana, feriados, qualquer tempo.


Infelizmente, não é um dado isolado. Trata-se de repetição, estrutura e cotidiano. Diante disso, campanhas de parabenizações, cartazes, flores e listas de leitura parecem pequenas. Não inúteis, mas insuficientes e isso porque não estamos falando apenas de visibilidade. Estamos falando de quem vive, de quem morre, de quem permanece e de quem é silenciada. 


Durante março, lemos mulheres com mais atenção. Compartilhamos autoras, indicamos livros, organizamos mesas temáticas. E há valor nisso, mas também há um risco silencioso que se torna cada vez mais presente; transformar em gesto pontual aquilo que deveria ser prática contínua. Quando o mês termina, a pergunta não é o que lemos e defendemos, mas o que deixamos de discutir e refletir durante todo o resto do ano.


Assim, março termina sem alarde. As vitrines das livrarias e lojas mudam, as mesas temáticas das universidades desaparecem, os algoritmos reorganizam suas sugestões. O que dias atrás era destaque, na próxima semana voltará ao fluxo comum. É nesse retorno ao “fluxo comum” que a normalização se instala, e aquilo que por alguns dias pareceu central volta a ocupar o lugar de sempre. E, com isso, o que é estrutural permanece intacto.

A violência contra mulheres não se sustenta apenas no ato extremo que abre este texto, ela se organiza em camadas. Está nos números, mas também nos gestos cotidianos, nas relações de poder, nas formas de silenciamento que antecedem qualquer estatística. Afinal, antes do crime, há um ambiente que o permite.


É nesta perspectiva que a recente aprovação, no Senado, do projeto que inclui a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação sinaliza um deslocamento importante no modo como o Estado passa a reconhecer essa violência. Definir a misoginia como expressão de ódio e aversão às mulheres e ampliar sua interpretação no âmbito da Lei do Racismo faz romper a leitura restrita da ofensa individual e a insere como problema estrutural. É um reconhecimento de que há uma engrenagem social que sustenta essas práticas. A medida, ainda em tramitação na Câmara, responde a uma realidade já evidente: a violência contra mulheres não é episódica, é sistemática, e exige respostas que também operem nesse mesmo nível.


Falar de igualdade de gênero, então, não pode ser apenas afirmar um princípio, mas deve ser um ato de confrontar uma estrutura que se reproduz com eficiência. Uma estrutura que atravessa a família, a escola, o trabalho, a linguagem, a cultura. Que ensina, de forma direta ou sutil, quem pode falar, quem deve se calar, quem é ouvido e quem é interrompido.


Essa engrenagem não se mantém apenas pela força, se mantém pela naturalização e pelo modo como certos comportamentos são vistos como normais, certas ausências não são questionadas, certas violências são relativizadas. Quando Simone de Beauvoir afirma, em O Segundo Sexo (Ed. Nova Fronteira, 2008, 936 p.), que a condição feminina é construída, ela não está só propondo uma reflexão filosófica, mas evidenciando que aquilo que parece dado é, na verdade, produzido. E o que é produzido pode, portanto, ser transformado. Mas transformação exige mais do que reconhecimento, exige deslocamento. E deslocar implica desestabilizar o que está consolidado, implica rever privilégios, questionar certezas, romper com padrões que foram aprendidos como naturais.


A violência, nesse sentido, não começa no ato final, mas se inicia muito antes, em pequenas permissões sociais. Na piada que passa, na fala que interrompe, na decisão que exclui, na narrativa que não inclui. Por isso, enfrentar essa estrutura não é tarefa pontual, não se resolve só com campanhas, embora elas tenham seu lugar, não se encerra com o fim de um mês. Trata-se de um processo contínuo de revisão e reconstrução.


Há, no entanto, algo que tensiona esse cenário de forma silenciosa e persistente: a produção de narrativas que escapam da lógica dominante. Quando Carolina Maria de Jesus escreveu Quarto de Despejo (Ed. Ática, 2015, 200 p.), ela registrou uma realidade e a inscreveu no mundo, recusando o lugar de invisibilidade que lhe foi imposto. Em Olhos d’Água (Ed. Pallas, 2014, 116 p.), Conceição Evaristo constrói histórias que não cabem nas versões oficiais. São vozes que atravessam dor, memória e resistência, reorganizando o que entendemos por experiência social.


Também podemos nos debruçar sobre a literatura convencional, mesmo em romances distópicos como em O Conto da Aia (Ed. Rocco, 2017, 368 p.), em que Margaret Atwood expõe, de forma incisiva, como estruturas de controle podem se reconfigurar e se legitimar, no livro e na série homônima, a violência ali não é exceção, mas caracteriza-se como sistema. Esta e outras obras não operam no campo da ilustração, elas tensionam, revelam fissuras e desestabilizam certezas. E, ao fazer isso, deslocam o olhar.


É nesse ponto que a leitura aparece e que se justifica este texto nesta coluna. Claro, não que a leitura seja solução, mas como inflexão. Como possibilidade de contato com aquilo que foi historicamente silenciado. Como espaço onde outras formas de existir ganham linguagem. Mas seria ingênuo acreditar que apenas ler resolve. A leitura, por si só, não desmonta estruturas, ela pode, no entanto, provocar deslocamentos que se desdobram em ação, em posicionamento, em mudança de prática.


A igualdade de gênero, portanto, não deveria ser apenas uma pauta. Mesmo ainda tópico específico de campanha de temporada. É uma reorganização profunda das formas de convivência, exige que se reveja o que foi aprendido, o que foi naturalizado, o que foi aceito sem questionamento. E isso passa, inevitavelmente, pela forma como nos relacionamos com a outra pessoa. Pela capacidade de escuta, pela disposição de reconhecer desigualdades que não nos afetam diretamente, mas que estruturam o mundo em que vivemos.


Há também uma dimensão coletiva que não pode ser ignorada... Nenhuma transformação se sustenta de forma isolada, é no encontro, no diálogo, na construção conjunta que novas possibilidades se afirmam. Nesse movimento, surgem novas produções, novos projetos, novas vozes que recusam o silêncio como destino. Obras que não pedem espaço, mas o ocupam. Que não se limitam a existir, mas que tensionam o que está posto.


Um convite possível neste momento, está na reflexão e na ação, em participar, em escrever, em construir, em dar forma a experiências que ainda não foram plenamente narradas. As obras que estão sendo gestadas e apresentadas a seguir são parte de um movimento de disputa por espaço, por voz, por reconhecimento.


Em Mulheres que escrevem o mundo: contos, crônicas e inspirações, há espaço para textos que partem da vida, do cotidiano, da sensibilidade e da criação, escritas que não pedem licença para existir. Em Cartografias do Feminino: identidade, memória e protagonismo, o convite é outro, mapear trajetórias, tensionar conceitos, registrar histórias que ajudam a compreender como se constrói, se disputa e se afirma o feminino em diferentes contextos. Já em Silêncios e Resistências: do silenciamento ao protagonismo no enfrentamento à violência, a escrita se aproxima ainda mais da urgência. Textos que enfrentam, denunciam, elaboram e transformam experiências marcadas por violência, mas também por resistência. Estas três chamadas se encontram abertas à recepção de textos em formato de artigos, prosa, ensaios, relatos. Conheça as chamadas e envie seus textos em: vveditora.com/chamadas  


Ideias que ficaram anotadas em cadernos, experiências que ainda não encontraram forma, reflexões que atravessam o cotidiano e não cabem mais no silêncio. Talvez este seja o momento de não adiar. Estas chamadas não se limitam a reunir textos, mas buscam construir presença, memória e protagonismo em torno das experiências, narrativas e existências femininas.


Março termina, mas aquilo que ele evidencia não se encerra com ele. A estrutura que permite a violência continua operando. E é justamente por isso que a resposta não pode ser episódica, ela precisa ser contínua, consciente. E, sobretudo, coletiva.




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