A ditadura do algoritmo: 25 anos de Josie e as gatinhas
- Raphael Rosalen
- 4 de abr.
- 3 min de leitura

Tara Reid, Rachel Leigh Cook, e Rosario Dawson em Josie e as Gatinhas (2001). A imagem da banda em meio a logotipos de marcas reais ilustra a sátira central do filme sobre a mercantilização da cultura e a fabricação de tendências.
Ao longo de 2025, investigamos nesta coluna a vertigem do presente — da cultura do imediato à invasão da inteligência artificial. Para 2026, propus que usássemos o cinema como régua para medir o quanto o mundo mudou. Em abril, o nosso retrovisor foca em um filme que, em 2001, parecia uma caricatura colorida e barulhenta, mas que hoje se revela um retrato cru e quase assustador do nosso controle digital.
Em abril de 2026, Josie e as Gatinhas (Josie and the Pussycats) completa 25 anos. Na época do lançamento, o filme foi um fracasso retumbante: arrecadou apenas 14 milhões de dólares, contra um custo de 22 milhões. A crítica da época, em sua maioria, o classificou como um "produto juvenil descartável". Levamos duas décadas para entender que a obra, escrita e dirigida por Deborah Kaplan e Harry Elfont, não era "bobinha"; era uma sátira feroz que hoje é celebrada como um clássico cult por ter previsto, com precisão cirúrgica, a mecânica da nossa exaustão capitalista e digital do presente.
Baseado nas personagens dos quadrinhos Archie e no desenho clássico da Hanna-Barbera, o filme acompanha Josie (Rachel Leigh Cook), Melody (Tara Reid) e Val (Rosario Dawson), três amigas que sonham em tirar sua banda de rock da garagem e levá-la ao topo das paradas sem abrir mão do seu estilo e autenticidade. O sonho parece virar realidade quando elas assinam um contrato com a poderosa MegaRecords, mas a ascensão meteórica esconde um plano sinistro: a gravadora usa a banda como peão para inserir mensagens subliminares nas músicas e ditar o comportamento da juventude americana. Há uma cena que resume perfeitamente esse controle: a cidade inteira está vestindo rosa, mas basta uma nova música tocar para que uma garota decrete: “Gente, laranja é o novo rosa!”. Instantaneamente, todos trocam de roupa e passam a vestir laranja. A identidade visual de uma geração inteira é substituída por um comando externo, centralizado e invisível.
A ironia do filme é deliciosa. A revista Variety, uma das poucas a elogiar a obra na estreia, chamou-a de "intoxicantemente inteligente". O filme critica o consumo desenfreado enquanto é, propositalmente, lotado de logotipos de marcas reais. Até a trilha sonora caiu na própria armadilha: as músicas, compostas para parodiar o "Pop chiclete" fabricado em laboratório, eram tão boas que se tornaram um sucesso real de vendas, alcançando a 6ª posição na Billboard 200 em 2001. Além disso, o álbum recebeu o certificado de Disco de Ouro nos Estados Unidos, vendendo mais de 500 mil cópias. O mercado, como o filme prova, é capaz de devorar até o deboche feito contra ele.
Mas o que Josie e as Gatinhas diz para nós, em 2026? A tecnologia de mensagens subliminares do filme hoje atende pelo nome de "algoritmo". O que era ficção científica em 2001 é o nosso cotidiano no TikTok e no Instagram. Vivemos sob a ditadura das micro-trends: estéticas que nascem e morrem em 48 horas, nos obrigando a uma atualização constante de pele para não ficarmos obsoletos. Ontem era “brat”; hoje é “Midnight Sun”, e amanhã será qualquer outra estética que o sistema decidir.
Precisamos, porém, parar de tratar o "algoritmo" como um fantasma ou um mistério matemático. Esses sistemas de recomendação não são neutros; são ferramentas de segmentação projetadas por grandes corporações com objetivos comerciais explícitos: maximizar a sua retenção e a receita publicitária. Não é uma coincidência você querer vestir "laranja" hoje; é o resultado de iterações de testes A/B e sinais de relevância processados por bilionários que detêm o monopólio da nossa atenção.
O filme nos avisou que a "autenticidade" seria a mercadoria mais valiosa do futuro. Hoje, somos incentivados a performar uma vida real e vulnerável para gerar engajamento, mas essa entrega é moldada para agradar ao código. Somos todos, de certa forma, "Gatinhas" tentando manter o contrato com uma gravadora invisível do Vale do Silício, onde o sucesso depende de quão bem dançamos conforme a música da vez.
Ao revisitar a jornada de Josie, Melody e Val, a lição que fica para 2026 é clara: em um mundo onde o "laranja" é ditado por algoritmos que visam apenas o lucro, manter a essência e os laços reais é o maior — e talvez o único — ato de rebeldia possível. No final, as Gatinhas escolheram a amizade em vez do topo das paradas. Talvez a gente devesse tentar o mesmo.
Bom filme.
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