Traiu ou não traiu?
- Everton Viesba

- 14 de fev.
- 4 min de leitura
Abro o celular pela manhã, enquanto o café termina de coar, vejo ela outra vez. Capitu. Olhos de ressaca, olhos oblíquos. Olhos que, segundo a internet, agora têm laudo pericial, júri popular e sentença definitiva. Em menos de trinta segundos de rolagem, encontro três versões diferentes da mesma pergunta: traiu ou não traiu?
Acho curioso. Leitores ávidos levam 3, 4 horas para lerem Dom Casmurro. Leitores ocasionais e não-leitores ou ainda estudantes do ensino médio, levam 20 a 30 dias, lendo diariamente por 20, 30 minutos. Se levamos algumas horas para lê-lo, especialistas em literatura e machadianos diriam que alguns de nós levem anos para compreendê-lo minimamente. Mas bastou um corte de vídeo, um carrossel bem editado e meia dúzia de frases destacadas para resolver o enigma que Machado de Assis teve o cuidado de deixar irresoluto.
Confesso que admiro a ousadia e, de algum modo, até me atrai. Séculos de crítica literária, teses, dissertações, debates acadêmicos, e a solução estava ali, escondida em um meme com fonte colorida e trilha sonora dramática. A literatura brasileira precisava apenas de um algoritmo. Cortella diria: — Será?
Veja bem, querido e querida leitor(a). O problema aqui não é o humor. Sempre houve releituras, paródias, adaptações. O que me proponho a refletir neste artigo é a substituição da leitura. Quando o meme se torna suficiente. Quando a dúvida deixa de ser experiência estética e vira enquete de stories. Vejo comentários seguros, convictos, quase indignados. “Ela traiu, sim.” “Bentinho era paranoico.” “É óbvio.” Óbvio. Talvez essa seja a palavra mais perigosa para a literatura. O clássico não foi escrito para ser óbvio. Foi escrito para nos deslocar.
O que me inquieta não é defender Capitu, afinal, ela não precisa de advogado. O que me inquieta é perceber que reduzimos um romance sobre memória, ciúme, construção narrativa e manipulação do discurso a uma discussão conjugal de condomínio. Como se Dom Casmurro fosse apenas um boletim de ocorrência sentimental. Há algo de profundamente sintomático nisso. Até então, recebemos os clássicos como textos densos, cheios de camadas, ainda que muitas vezes mal ensinados. E a sensação é de que estamos deixando como herança versões comprimidas, higienizadas, prontas para consumo rápido. Troca-se a ambiguidade pela certeza, a leitura pela opinião.
E me pergunto, não como crítico distante, mas como professor e editor: quando foi que deixamos de ensinar a suportar a dúvida? Quando foi que decidimos que todo texto precisa de resposta final, alternativa correta e conclusão inequívoca? Em minhas aulas na educação básica, o professor José Viana nunca trouxe essa dúvida para discussão. No curso de Letras, em análise literária, numa turma com 180 alunos, também ninguém perguntou se Capitu traiu. Mas giramos no desafio de ler até o fim e, mais difícil, a permanecer sem resposta.
A literatura, que sempre foi território de ambiguidade, virou plenário nas redes sociais. Percebe-se que há defesa, acusação e veredicto. Embora faltem as togas.
Machado de Assis construiu um narrador que escreve para convencer. Bentinho não relata, ele argumenta, reorganizando a memória como um dossiê. Para quem lê, a dúvida é estrutural, para Machado a ambiguidade foi método. Mas nas redes sociais, a pergunta virou binária. Sim ou não. Culpada ou inocente. Veja bem, é claro que a as tecnologias digitais e a infinidade de aplicativos existentes contribuem com a “re”popularização desta e de outras obras literárias, todavia, a praticidade dos memes e explicações em resumos de 3 minutos faz perder não só a complexidade da personagem, mas, principalmente, a percepção de que o romance é também uma reflexão sobre memória falha, narrador pouco confiável, construção do discurso. Quando reduzimos Capitu a suspeita conjugal, ignoramos que o verdadeiro jogo está na linguagem.
Um dos conteúdos que rolou em minha tela foi um vídeo explicativo: “Entenda Dom Casmurro em três minutos”, mais abaixo, um carrossel: “Tudo sobre Capitu para arrasar na prova.” A promessa é sedutora, claro, tempo economizado, complexidade traduzida, dúvida eliminada. Todavia, contudo, não obstante, na prática, o que se entrega é um pacote de conclusões prontas. O clássico virou roteiro, um simples esquema. A leitura deixa de ser travessia e vira atalho.
Não sei se estou me fazendo entender, então apresento um cenário real: Quando um estudante já chega à aula dizendo que Bentinho era paranoico porque viu isso em um vídeo, a experiência literária já foi filtrada. Ele não está reagindo ao texto, mas ao que disseram sobre ele. A percepção da leitura não é única e exclusivamente individual, ela é atemporal em relação ao leitor, a quando lê, como lê e para com a emoção de quem escreveu o texto.
Enquanto sociedade perdemos a capacidade de sustentar contradição, é importante saber compreender que Bentinho pode ser vítima e manipulador ao mesmo tempo. Que Capitu pode ser múltipla e que o narrador pode mentir. A verdade pode ser construída e não ser universal. Se a literatura vira apenas conteúdo avaliativo ou entretenimento viral, perde-se essa dimensão ética. O clássico deixa de ser espelho incômodo e vira objeto decorativo.
Talvez a pergunta que deveríamos fazer não seja se Capitu traiu. Talvez a pergunta seja: ainda sabemos ler um narrador em primeira pessoa com desconfiança? Ainda mais importante, se professor, ainda ensinamos nossos estudantes a desconfiar da própria narrativa que constroem sobre o mundo?
Os clássicos permanecem não porque sejam antigos, mas porque nos obrigam a lidar com a ambiguidade. Eles nos ensinam que a verdade pode ser parcial, que a memória é falha, que o discurso é construção. Quando trocamos isso por respostas rápidas, perdemos algo maior do que um romance bem interpretado. Perdemos a capacidade de ler a complexidade da vida social, política e afetiva.
Neste tempo em que tudo precisa ser decidido em poucos segundos, aprender e ensinar a respeitar a dúvida pode ser o gesto mais radical que a literatura ainda nos permite.
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