Faça o que eu digo. E falhe como eu falho
- Everton Viesba

- 31 de jan.
- 4 min de leitura
Perguntar se a incoerência é exceção ou regra talvez seja uma das formas mais honestas de iniciar uma conversa sobre o comportamento humano. Porque, se formos minimamente sinceros, a resposta nos desconcerta. Gostamos de nos apresentar como seres racionais, coerentes, previsíveis. Mas a vida cotidiana insiste em nos desmentir.
Em minhas andanças presenciais curtas pelo Brasil e nas centenas de relações virtuais que mantenho com professores e autores, tenho percebido que pensamos uma coisa, dizemos outra, fazemos uma terceira e sentimos algo que nem sempre conseguimos nomear.
A princípio, supus ser um desvio ocasional, mas percebi que é um modo recorrente de ser e existir. A coerência plena é mais um ideal narrativo do que uma experiência concreta. Me pergunto se Paulo Freire já pensava assim quando recomendou em Pedagogia da Autonomia (Ed. Paz e Terra, 2020, 143 p.) “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”.
Desde cedo, aprendemos a exigir coerência dos outros. Dos filhos, dos alunos, dos colegas, dos governantes, dos parceiros afetivos. A incoerência alheia nos irrita porque nos lembra da nossa própria fragilidade, ainda que não gostemos de admitir isso. A famosa máxima “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” atravessa gerações. Pais que cobram estudo, mas não leem. Adultos que exigem diálogo, mas não escutam. Educadores que defendem empatia, mas operam pela humilhação simbólica. O problema não está só na contradição, mas na naturalização dela quando nos beneficia.
No cotidiano doméstico, a incoerência assume formas quase invisíveis. O parceiro que cobra organização, mas não organiza. Que exige cuidado, mas não cuida. Que pede presença, mas se ausenta. De acordo com o padre Cristiano Marmelo, em Celebrar o matrimônio hoje, (Ed. Palavra & Prece, 2012, 175 p.), as relações adoecem não por grandes conflitos, mas por pequenas incoerências acumuladas e nunca nomeadas e sanadas, mas sempre ignoradas.
No trabalho, o discurso da colaboração convive com práticas profundamente individualistas. Fala-se em equipe, grupo de pesquisa, mas premia-se o desempenho solitário. Exalta-se o diálogo, mas decisões são tomadas a portas fechadas. Defende-se o coletivo, desde que o reino continue sendo meu. Talvez isso aconteça porque o ser humano não é apenas racional. Somos também emocionais e instintivos. Carregamos impulsos, medos, desejos e estratégias de autopreservação que frequentemente entram em choque com aquilo que sabemos ser o mais justo.
Hannah Arendt, em A Condição Humana (Ed. Forense Universitária, 2016, 474 p.), refletiu que agir no mundo envolve sempre imprevisibilidade. Não controlamos plenamente os efeitos de nossas ações, nem somos plenamente coerentes ao longo do tempo. Mudamos, recuamos, nos contradizemos. Isto vai ao encontro de Bauman, Modernidade Líquida (Ed. Zahar, 2021, 280 p.) ajuda a entender por que a incoerência se tornou ainda mais visível. Vivemos em um tempo de vínculos frágeis, compromissos descartáveis e identidades instáveis. Defender algo hoje não garante sustentá-lo amanhã.
Essa liquidez aparece com força na política brasileira. Discursos inflamados sobre ética convivem com práticas oportunistas. Defensores da moral pública relativizam escândalos quando o envolvido é “do seu lado”. O combate à corrupção vira bandeira seletiva, usada conforme a conveniência do momento. Exige-se austeridade do Estado, mas tolera-se privilégios pessoais. Critica-se o assistencialismo, enquanto se reivindicam benefícios próprios. Fala-se em democracia, mas flerta-se com soluções autoritárias quando o resultado das urnas desagrada.
Naturalmente, essa incoerência política não é apenas dos representantes. Ela é também do eleitorado. Pedimos mudanças profundas, mas resistimos a alterar hábitos cotidianos. Reclamamos da desigualdade, mas naturalizamos pequenos privilégios. Defendemos direitos, desde que não impliquem deveres.
Lacan, em O Seminário (Ed. Zahar, 1985, 280 p.) pontua que o sujeito do inconsciente é um sujeito barrado, isto é, não coincidimos, nem concordamos, plenamente conosco. O que pensamos, dizemos e fazemos nunca parte do mesmo lugar. Já Sigmund Freud alertava para essa tensão permanente entre pulsão e civilização. Não somos seres transparentes nem para nós mesmos. Há uma luta silenciosa entre o que queremos, o que podemos e o que acreditamos dever fazer – leia mais em Mal-Estar na Civilização (Ed. Penguin-Companhia, 2011, 96 p.).
No campo das relações sociais, o famoso “venha a nós o vosso reino” se manifesta de forma cruel. Espera-se escuta sem oferecer escuta. Exige-se apoio sem oferecer presença. Relações unilaterais se travestem de parcerias e a lógica do dar e receber, que nunca foi contábil, se torna relacional. Quando o fluxo se rompe, instala-se o ressentimento. A incoerência passa a ser vivida como injustiça, mesmo quando praticada por quem se diz vítima.
Edgar Morin contribui na discussão ao lembrar que o ser humano é complexo. Reduzi-lo à coerência linear é ignorar sua natureza contraditória. Pensamento complexo não busca eliminar contradições, mas compreendê-las. Deste modo, talvez não caiba aqui discutir se a coerência é exceção ou regra, mas sim a autocrítica. Afinal, há diferença entre falhar e se eximir da responsabilidade pela falha. Reconhecer limites e justificar abusos. A linha entre incoerência e hipocrisia é tênue, mas fundamental de ser entendida.
Se reconhecemos a incoerência como regra, o caminho para a responsabilidade se torna mais visível, isto é, se sabemos que falhamos, precisamos criar mecanismos de revisão, escuta e ajuste. A autocrítica não enfraquece o sujeito, ao contrário, o humaniza. Admitir incoerências abre espaço para relações mais honestas e menos idealizadas.
Talvez a pergunta mais importante não seja se somos incoerentes, afinal, somos, mas o que fazemos com isso? Fingimos coerência, ignoramos a nossa própria complexidade ou aprendemos a lidar com nossas contradições?
A incoerência pode ser ponto de partida para amadurecimento ou álibi para permanência no erro. Tudo depende do nível de consciência que estamos dispostos a sustentar. Agora, se a incoerência é regra, cabe a nós decidir se ela será desculpa ou ferramenta de transformação. E essa escolha, diferente de muitas outras, não pode ser terceirizada.
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