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Do BookTok ao banco da praça: a volta dos livros

4 de jul.
4 min de leitura

Tenho acompanhado, nas últimas semanas, as declamações de Antonio Fagundes (@antoniofagundes) e Pedro Bandeira (@eupedrobandeira), bem como as aparições mais esporádicas de Thalita Meneghim (@thalitameneghim). Quando descobri, ou melhor, quando cedi, às inúmeras sugestões e provocações para seguir e consumir os conteúdos literários digitais, bem como as resenhas e mininovelas verticais no Instagram, me deparei com esse universo fantástico e a tecnologia digital, finalmente, voltou a brilhar sob meus olhos.


Há algo bonito nessa onda: a literatura reaparece como texto, mas ganha novas vozes e presenças. São vídeos que, embora circulem nas redes, parecem remar contra a lógica mais apressada delas. Não pedem o deslizar do dedo, mas alguns segundos, às vezes minutos, de atenção real. Talvez esteja aí uma das pistas desse retorno: não se trata de voltar ao livro como objeto, mas de recuperar a experiência literária como encontro. Seja pela página, pela voz ou pela memória afetiva de um poema, a leitura parece reencontrar caminhos para tocar pessoas que, cansadas do excesso de informação, precisam ser tocadas por palavras.


Durante muito tempo, anunciaram a morte do livro físico com a mesma convicção com que já anunciaram o fim do rádio, do cinema, da escrita à mão. Além, é claro, do próprio jornal. E cá estamos, resistindo em todos esses meios. Cambaleando em alguns, mas mantendo o brilho em todos! Naturalmente, bastava surgir uma nova tecnologia para que alguém decretasse, com certo entusiasmo apocalíptico, que o objeto anterior estava condenado ao desaparecimento. O livro impresso, coitado, morreu várias vezes. Morreu com a televisão, com o e-book, mais recentemente com o audiolivro e com os resumos automáticos e vídeos curtos da IA. E, no entanto, continua ali, ocupando mesas, bolsas, estantes e mãos.


O curioso é que sua permanência, vista como uma resistência nostálgica ou ainda resquício da intelectualidade, parece começar a mudar... A geração que cresceu sob o brilho das telas, agora, ainda que aos poucos, começa a procurar sombras, páginas, silêncio e companhia. Da pandemia em 2020-2023 para cá, o livro físico voltou a ganhar evidência. Ele não acende sozinho, não vibra, não interrompe. Sequer mede desempenho, tampouco sugere outro conteúdo antes que você termine o primeiro. Esta tecnologia, datada de séculos, não transforma sua atenção em dado e, talvez por isso, esteja se tornando, para muitos, menos um produto e mais um refúgio.


As imagens recentes que circulam sobre o retorno dos livros falam de mercado, luxo, grifes, BookTok e objetos de desejo; percebe-se que há um lado nessa transformação: os livros ocupam vitrines sofisticadas, são tratados como peças de decoração, ganham capas de colecionador e acabamento de obra de arte. Mas talvez a parte mais interessante dessa história não esteja nos livros de mil dólares anunciados pela Forbes, nem nas bibliotecas de foto de influencers famosas. Está em algo mais simples: pessoas se reunindo para ler.


Cafeterias cheias de leitores, os clubes de leitura que não prometem networking, jovens combinando encontros sem celular em parques da capital e do interior. Pessoas que levam seus livros para a praça como quem leva uma garrafa de água ou uma companhia. Quiçá não é o livro uma própria? O livro físico, nesses casos, ganha espaço como refúgio para desacelerar e não como produto.


Contudo, todavia, não obstante... é preciso cuidado para não transformar essa retomada em mais uma tendência passageira, daquelas que duram o tempo de uma hashtag. Penso que editoras e escritores não devem só se preocupar sobre os livros voltarem a ser amplamente consumidos; cabem ainda perguntas que tangenciam todo o contexto: voltamos a ter tempo para ler? A aceitar o silêncio como companhia? Voltamos a suportar uma atividade que não oferece a recompensa imediata de um like ou a conversar sobre ideias sem a pressa de vencer uma discussão?


Isso, claro, porque ler um livro impresso, em minha singela opinião, exige uma espécie de acordo. É preciso estar ali, imerso. Não dá para abrir dez abas ao mesmo tempo dentro de um romance de Nicholas Sparks, não dá para pular de uma notificação para uma poesia sem perder alguma coisa no caminho. O livro físico pede corpo, luz, pausa, mão, respiração. Ele nos lembra que compreender leva tempo. Por isso as bibliotecas e as academias de letras também estão voltando a ter suas importâncias reconhecidas. Não são só espaços que guardam livros ou grupos de pessoas que os escrevem, a primeira impressão tende a ser esta..., mas podemos entender esses espaços como guardiões da relação cultura-tempo. Uma biblioteca, para além dos tribunais, é uma das poucas instituições que ainda nos convida a baixar o tom de voz e as academias de letras, talvez até mais do que as universidades, ainda se permitem e possibilitam os debates e diálogos por horas a fio, sem a necessidade de cumprir horário ou atribuir nota ao término do encontro.


Isso vale para as cafeterias de leitura, para os clubes literários, para as feiras de livros e para os encontros em praças e parques. O que está em jogo não é só o objeto livro, mas o modo de vida que ele convoca. Ler junto, ainda que em silêncio, cria uma comunidade diferente daquela formada por curtidas e compartilhamentos. É uma comunidade de permanência.


No entanto, seria ingênuo romantizar demais todo esse movimento. Como editor, escritor e ávido leitor, sei bem que o livro físico também custa e, não raras as vezes, custa caro! Livrarias fecharam, leitores perderam poder de compra, bibliotecas públicas foram abandonadas em muitos lugares — saudades da Biblioteca do Promissão - Diadema. Se o livro voltar apenas como item de luxo, voltará para poucos. E livro, quando é só ornamento, perde a parte mais importante de sua força. Ele pode ser bonito na estante, mas sua vocação maior ainda é circular, provocar, consolar.


Por fim, cabe dizer, estou ansioso por algum conteúdo específico ao tom de “De tudo, ao meu amor serei atento...” ou ainda, por uma contação precisa e entoada de “Um apólogo”.




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