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Beethoven e a alegria que aprendemos antes de saber

Foto de @fotografa.andreacamargo. 9ª Sinfonia de Beethoven (Regência: Abel Rocha, Direção: Luciano Camargo). Teatro Bradesco, São Paulo, 19 a 22 de fevereiro de 2026.



Em 2025 tive a chance de me preparar e planejar grandes momentos para a virada de ano e para este que se iniciou. Entre viagens curtas para conhecer tios e tias-avós, compreender a linhagem da família e visitar terras por onde nossos antepassados trilharam, também tive a oportunidade de assistir a dois concertos — um deles foi o espetáculo à luz de velas “Candlelight: Mozart & Beethoven”, realizado no Mosteiro de São Bento, no centro antigo de São Paulo. A proposta faz jus ao nome. É, de fato, um espetáculo. A arquitetura imponente, os vitrais e a penumbra iluminada por centenas de velas criam uma atmosfera que já prepara o espírito antes do primeiro acorde.


O Quarteto de Cordas Monte Cristo conduziu a noite com precisão e sensibilidade e, enquanto abrilhantavam os olhos e ouvidos daqueles que compunham o salão do mosteiro, a música de câmara revelou outra dimensão de Mozart e Beethoven: menos monumental, mais íntima. Cada arco, cada pausa, cada respiração compartilhada entre os músicos e o público tornava a obra mais viva.


Semanas depois, já no fim de fevereiro, participei da abertura da temporada 2026 da Uniopera. E digo, que nem de longe, as apresentações foram apenas concertos. Pelas dezenas de comentários nas redes sociais, pela euforia dos corredores pré e pós apresentação e, também, pela minha própria experiência ali vivida, foi uma declaração. Escolher a Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven para abrir o ano após o Carnaval é afirmar, logo na primeira nota, que a arte ainda é um gesto coletivo. Na última das quatro sessões oferecidas, fevereiro mostrou que tanto nos sambódromos e nos blocos de rua, quanto nos teatros, igrejas e anfiteatros, este mês não é só mais um no calendário, mas um momento anual de experiência partilhada, carregada de densidade histórica e emoção.


Antes da grande travessia, a Egmont Overture preparou o espírito de quem contemplava a orquestra. Escrita para a peça de Goethe, a abertura desenha uma arquitetura sonora que oscila entre opressão e libertação. A orquestra Uniopera conduziu esse percurso com precisão e tensão controlada, instaurando desde os primeiros acordes uma atmosfera de expectativa que anunciava algo maior.


Então veio a Nona. Vale comentar que Beethoven a compôs já completamente surdo. E, no cerne da natureza humana, percebemos nessa imagem de um compositor que não ouvia o mundo criando uma das obras mais sonoras da história. Entendo tanto de música quanto um bom ouvinte, isto é, bem pouco, mas a curiosidade em ler, estudar e agora apreciar, me leva a crer que a sinfonia ultrapassa o marco musical e se impõe como testemunho civilizatório. É como se, no silêncio absoluto, Beethoven tivesse escutado aquilo que ainda nos falta escutar.


O primeiro movimento da nona nasce praticamente do nada. As cordas sussurram, o tema se adensa, conflitos emergem. Não há conforto imediato, mas uma construção. O Scherzo explode com vigor rítmico, pulsação e energia indomável. Em contraste, o Adagio abre um campo de contemplação, alonga o tempo e nos conduz à respiração profunda. Até que o Finale rompe qualquer expectativa e a “Ode à Alegria” irrompe como gesto revolucionário: a introdução do coral em uma sinfonia. Vozes entram onde antes só havia instrumentos. Palavra e música se fundem. A experiência deixa de ser exclusivamente sonora e torna-se humana, política, coletiva.


A “Ode à Alegria” é uma melodia célebre e tornou-se hino da União Europeia, foi executada em momentos de reconstrução após guerras, ecoou em manifestações públicas ao redor do mundo. A alegria representada não ingênua, mas uma afirmação de humanidade em meio às ruínas.


Quando o coral finalmente rompeu o tecido orquestral, a atmosfera do teatro se transformou. Jéssica Leão projetou um soprano de timbre claro e emissão precisa que atravessavam a massa do teatro como se fossem feixes de luz. Gabriela Bueno sustentou o mezzo-soprano com centro vocal consistente e fraseado elegante, atribuindo o corpo e profundidade necessários ao conjunto. Rafael Steins trouxe ao tenor brilho metálico e projeção segura, conduzindo as linhas com intensidade dramática e entrega genuína e Rodolfo Giugliani, barítono, trouxe ressonância e ancorou o quarteto com autoridade e presença, conferindo à entrada o peso humano que a “Ode à Alegria” merece.


O Coral Uniopera abriu a temporada 2026 e transformou o Teatro Bradesco em organismo vivo. As vozes respiravam juntas, cresciam juntas. No centro desse movimento, o maestro convidado, Abel Rocha, conduziu com firmeza e atenção, permitindo expansão sem dispersão. Enquanto a plateia contemplava seus movimentos, ora sutis, ora animalescos.


Para quem não está habituado ao repertório sinfônico, assim como eu, a Nona pode parecer extensa. Mas tão logo se inicia, também se revela uma breve jornada. Começa em tensão, atravessa energia, desacelera na introspecção e culmina em celebração. Uma verdadeira narrativa sonora da natureza da condição humana.


Curiosamente, muitos de nós conhecemos essa música muito antes de entrar em um teatro. Ela já estava nas salas de casa. Em animações como Fantasia, da Walt Disney, a música clássica ganhou forma visual e marcou gerações. Em episódios de Tom e Jerry, perseguições eram coreografadas ao som de peças eruditas. O irreverente Woody Woodpecker (Pica-Pau) fazia do exagero operístico parte de seu humor. Crescemos ouvindo sinfonias sem saber que eram sinfonias. Para os mais novos, quem nasceu a partir dos anos 2000 talvez se recorde do breve trecho executado pela Seattle Symphony Orchestra que ecoa na música teste dos computadores com Windows. Trinta segundos de Beethoven anunciando o futuro digital.


Essa presença difusa da música clássica na cultura popular revela algo maior. Ela integra nossa memória coletiva, aprendemos a gostar de algo e a ser felizes com aquilo antes mesmo de saber nomeá-la. É como assistir ao longa Carruagens de Fogo e enquanto os olhos se prendem às cenas, o coração pulsa e os dedos se movem no sofá, representando as “batidas e tons” da música. Theodor Adorno, em Dialética do Esclarecimento (Ed. Zahar, 1947, 345 p.) comenta que a música carrega em sua forma as tensões sociais de seu tempo.


Destarte, vivendo na era das playlists instantâneas, da escuta fragmentada e da aceleração constante. Saltamos faixas, comprimimos experiências, consumimos emoções em doses rápidas. Uma música viraliza em cada Carnaval e meses depois cai no esquecimento.  A Nona de Beethoven não, ela exige escuta paciente e com isso, ela se faz permanente.




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