Utilização de Laboratório de Ciências nas Escolas
- Luiz Alberto de Souza
- 31 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de jun.
A organização dos espaços escolares é considerada um dos fatores da qualidade do ensino no Brasil, sendo o Estado responsável por prover ambientes adequados às práticas pedagógicas. Conforme Bueno e Franzolin afirmam em seu artigo “O uso de diferentes espaços escolares nas aulas de ciências da natureza” (2020), esse planejamento influencia o desempenho discente, pois a infraestrutura e os recursos pedagógicos disponíveis, como laboratórios e bibliotecas, elevam a qualidade do ensino quando utilizados pelos professores. O laboratório de ciências pode ser descrito como um ambiente propício a práticas experimentais, único para o desenvolvimento de competências como manipulação de instrumentos científicos, observação, compreensão de conceitos teóricos e aprimoramento da resolução de problemas.
Para fomentar o uso do laboratório na escola pública onde leciono ciências, desenvolvi uma proposta curricular adaptada do ”Guia com Propostas de Atividades Investigativas” de Tainara Zampieron (2021), alinhada à Base Nacional Comum Curricular – BNCC, que valoriza a investigação científica e a aplicação do conhecimento em contextos reais, transformando o ensino de ciências em algo significativo e envolvente.
O objetivo desta atividade in¬vestigativa, realizada com alunos do sétimo ano de uma escola estadual em São Paulo, foi a apropriação do método científico. Iniciamos com a leitura e interpretação de uma tirinha que apresentava duas amigas almoçando, onde uma delas sentia azia e pedia ajuda para encontrar uma solução rápida, sendo sugerido um antiácido.
A partir dessa situação cotidiana, propôs-se aos estudantes que refletissem sobre como o antiácido age no organismo e como acelerar seu efeito. Para explorar essa questão experimentalmente, testamos duas variáveis que poderiam influenciar a velocidade de ação do antiácido: Temperatura da água: Comprimidos foram dissolvidos em água quente e gelada. Observou-se que na água quente a dissolução foi mais rápida, enquanto na água gelada foi mais lenta, gerando uma discussão sobre o efeito da temperatura em reações químicas no organismo. O professor incentivou a reflexão com perguntas como: por que a reação ocorreu mais rápido com água quente e com o comprimido fragmentado? Tamanho do comprimido: Comprimidos inteiros e fragmentados foram comparados. Os alunos notaram que o comprimido fragmentado se dissolveu mais rapidamente, levando à reflexão sobre a influência da superfície de contato na eficácia do medicamento.
Durante a atividade, os estudantes registraram detalhadamente suas observações em relatórios, prática essencial para organizar ideias e compreender a importância da documentação científica. Ao final, compartilharam suas conclusões com a turma.
A prática experimental proporcionou aos alunos uma vivência das etapas do método científico: observação do problema (azia e solução rápida), levantamento de hipóteses (como acelerar o efeito do antiácido), teste das hipóteses (experimentação) e análise dos resultados para conclusões.
A atividade permitiu relacionar conceitos científicos com situações cotidianas, como a azia e o uso de medicamentos. Ao vivenciar essas etapas, os alunos desenvolveram uma compreensão mais profunda dos fenômenos químicos e biológicos, além de habilidades como trabalho em equipe, organização e pensamento crítico. A interação com os experimentos também aumentou o interesse pela ciência, tornando o aprendizado mais significativo e dinâmico.
Busco continuamente integrar essa perspectiva na sala de aula, apesar dos desafios da escola pública, como turmas numerosas e falta de recursos. A realização desta atividade foi gratificante ao observar o engajamento e a curiosidade genuína dos alunos pela ciência. É crucial que os estudantes tenham mais oportunidades de aprender pela prática, ampliando suas perspectivas e preparando-os para interpretar o mundo. Uma possível explicação para a subutilização do laboratório de ciências, como aponta Weissman, em “Didática das ciências naturais: contribuições e reflexões” (1998), pode ser a pouca importância dada à ciência no currículo escolar.
A falta de preparo e condições para o uso do laboratório pelos professores também contribui para essa situação. Infelizmente, essa realidade impede que os estudantes aproveitem ao máximo os recursos disponíveis, mantendo as aulas de ciências predominantemente expositivas, com livro didático, giz e lousa como principais recursos, o que não promove a renovação do ensino. A implementação de atividades experimentais exige um esforço coletivo da gestão escolar, professores e alunos. Parcerias com universidades, projetos de extensão e iniciativas de incentivo à ciência podem superar desafios estruturais e orçamentários.
A formação continuada dos docentes pode aumentar sua confiança e preparo para utilizar laboratórios e outros espaços de aprendizagem. Espera-se um avanço na valorização da experimentação nas escolas, pois, como demonstrado nesta experiência, ela potencializa um ensino mais significativo, a compreensão dos alunos e o pensamento crítico. A ciência precisa ser vivenciada, e cabe aos professores buscar alternativas para tornar isso possível na realidade educacional brasileira.
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