Entre arte e ciência: lições de educação com Leonardo Da Vinci
- Prof. Me. Everton Viesba
- há 4 dias
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No último Dia dos Pais, decidi trocar o almoço caseiro convencional por algo que fosse, ao mesmo tempo, celebração, memória e aprendizado. Fui com meu pai e minha família à exposição autoral da Visualfarm sobre Leonardo da Vinci. E foi curioso perceber como esse gesto acabou se transformando em um mergulho na própria ideia de educação como processo social. Espero conseguir demonstrar isso no decorrer do artigo.
A mostra em si, não é apenas uma reunião de réplicas ou um passeio turístico pelo Renascimento. A tecnologia e a curadoria da exposição possibilitaram a criação de algo imersivo, quase íntimo. Fazendo jus ao brilhantismo de Leonardo. Ao caminhar pelas salas, é como se abríssemos os cadernos de Leonardo e espiássemos suas obsessões: hélices, estudos anatômicos, máquinas de guerra, observações sobre redemoinhos de água. Enquanto visitante, me senti convidado a habitar um espaço em que a dúvida é mais valiosa do que a certeza.
E foi ali, em meio a engrenagens, desenhos e projeções, que percebi: Leonardo pode ser lido como um educador. Não porque tenha dado aulas formais, mas porque encarnou uma espécie de “pedagogia da curiosidade”. Walter Isaacson, em sua biografia “Leonardo da Vinci” (Ed. Intrínseca, 2017, 640 p.), insiste nesse ponto: o segredo de sua genialidade não era o talento artístico, mas a capacidade de se manter sempre curioso. Sua insaciável curiosidade, foi mais importante que qualquer dom natural.
Esse aspecto ecoa em pensadores da educação. Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (Ed. Paz & Terra, 2019, 144 p.), lembra que ensinar exige disponibilidade para o espanto: “Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino.” Da Vinci seria, nesse sentido, um exemplo radical: sua vida inteira foi uma pesquisa interminável, onde cada descoberta abria uma nova pergunta. Não é isso que a educação deveria ser?
Edgar Morin, em A Cabeça Bem-Feita (Ed. Bertrand Brasil, 2000, 128 p.), afirma que o verdadeiro desafio na educação é religar saberes, combater a fragmentação e cultivar a complexidade. Leonardo, séculos antes, já praticava essa visão. Ao unir arte, ciência, engenharia e filosofia em seus cadernos, ele mostra que a curiosidade não reconhece fronteiras disciplinares.
Querido e gentil leitor, sai dessa exposição admirando ainda mais a genialidade desse grande homem do Renascimento, mas, na mesma medida, me confrontei com uma pergunta incômoda: estamos cultivando, hoje, esse mesmo espírito de curiosidade em nossas escolas, universidades e até em nossas vidas cotidianas? Ou estamos sufocando perguntas em nome de respostas rápidas?
Talvez a lição de Da Vinci seja justamente essa: a educação não começa no manual, mas no espanto. E o espanto nasce quando temos a coragem de olhar o mundo e perguntar “por quê?”. Cortella diria: — Será?

Bom, tomemos para continuidade do artigo a Mona Lisa. Talvez o quadro mais famoso da história, mas também um dos mais mal compreendidos. O que fascina vai além do sorriso enigmático, mas a técnica que Leonardo desenvolveu — o sfumato. Essa transição quase imperceptível entre luz e sombra, entre o rosto e o ar, nos obriga a perceber o invisível: o espaço entre as coisas. A lição é clara: a vida não é feita de contrastes absolutos, mas de passagens sutis. E a educação, como a pintura, precisa cultivar esse olhar para o detalhe, para o que escapa à pressa. Outro exemplo é A Última Ceia. Leonardo não pintou apenas uma cena bíblica; pintou reações humanas. Cada apóstolo responde de forma diferente ao anúncio de Cristo: espanto, raiva, dúvida, incredulidade. O quadro se transforma em um laboratório de psicologia antes mesmo que a disciplina existisse. Ali aprendemos que não há uma única verdade, mas múltiplas interpretações. O olhar educado é aquele que sabe reconhecer essa diversidade sem querer reduzi-la a uma fórmula.
Há ainda obras menos lembradas, mas igualmente pedagógicas. Os estudos de proporção humana, por exemplo, culminaram no célebre Homem Vitruviano. Um verdadeiro manifesto visual: o corpo humano como medida e centro da harmonia universal. Observar esse traço é aprender que a arte também educa para a proporção, para a busca de equilíbrio entre o humano e o cosmos. E aqui cabe uma reflexão. Muitas vezes tratamos a arte apenas como adorno, como luxo. Mas em Da Vinci ela é ferramenta de conhecimento. Ele mesmo dizia que a pintura era uma ciência — e, nesse sentido, cada obra é, por si só, uma lição.

John Berger, em Modos de Ver (Ed. Fósforo, 2023, 192 p.), lembra que toda imagem é também uma forma de pensar. Leonardo parece ter intuido isso séculos antes. Quando pintou expressões, atmosferas, proporções, ele nos deixou lições para pensar através dos olhos. Ler um quadro, assim como ler um texto, é um exercício de atenção.
Leonardo cientista: a educação pela dúvida
Se como artista Leonardo nos educa a olhar devagar, como cientista ele nos ensina a desconfiar do óbvio. Sua vida inteira foi marcada pela recusa em aceitar respostas prontas. Ele observava, desenhava, testava. Voltava a observar, a desenhar, a testar de novo. Era um cientista antes mesmo que a palavra tivesse o peso que damos hoje.
Ao folhear as réplicas dos cadernos de Da Vinci, mais conhecidos como Códices, vemos rabiscos, esquemas de máquinas voadoras, estudos anatômicos, cálculos e hipóteses, que mais parecem um grande laboratório portátil. Há helicópteros, submarinos, pontes móveis, autômatos. Muitos desses projetos nunca saíram do papel, mas todos testemunham a força de um pensamento que preferia a dúvida à certeza.
Walter Isaacson ressalta que esse era o traço mais revolucionário de Leonardo: sua curiosidade obsessiva. Ele queria saber como a água corria, como o coração batia, como os músculos se esticavam, como as aves se mantinham no ar. Não havia fronteira entre arte e ciência, porque tudo era, antes de tudo, pergunta. A educação, leitoras e leitores, tem muito a aprender com esse gesto. Há um detalhe fascinante: Leonardo escrevia em espelho, mas sobre isso não darei detalhes. Vale a visita para se admirar ainda mais com tal proeza.
Para quem deseja mergulhar mais nesse aspecto de Leonardo, recomendo também o livro How to Think Like Leonardo da Vinci, de Michael Gelb (Ed. Dell Publishing Company, 2000, 336 p.). Embora com linguagem mais leve, ele mostra como os sete princípios do gênio, entre eles a curiosidade infinita (curiosità) e a experiência constante (dimostrazione) que podem inspirar nossa prática de ensino e aprendizagem, hoje.
Leonardo educador: a curiosidade como herança
Leitoras e leitores, talvez a maior contribuição de Leonardo para a educação não esteja em uma obra específica, mas em sua postura diante do mundo. Ele não se contentava em aprender o já dado; queria aprender o que ainda não tinha nome. Sua pedagogia era a curiosidade.
Essa dimensão nos lembra que a educação não deve ser apenas transmissão, mas cultivo. Cultivar o espanto, o desejo de explorar, a coragem de falhar. Leonardo falhou muitas vezes. Suas máquinas não voaram, suas cidades ideais não saíram do papel. Mas cada falha era também uma aula. Em tempos em que a escola valoriza apenas a resposta correta, a lição que ele nos deixa é preciosa: aprender é, muitas vezes, arriscar-se no erro criativo.
Edgar Morin, em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (Ed. Cortez, 2018, 104 p.), insiste que precisamos formar pessoas capazes de lidar com a incerteza. O que é Da Vinci senão um mestre da incerteza? Ele não sabia se suas máquinas funcionariam, mas as desenhou. Não sabia se compreenderia o corpo humano, mas o estudou. Não sabia se conseguiria pintar a alma em um sorriso, mas tentou. A incerteza, para ele, não era paralisia, era combustível.
Esse é um ponto essencial para pais, responsáveis, e, claro, professores — Se quisermos formar sujeitos críticos, criativos e cidadãos plenos, precisamos resgatar esse espírito leonardesco. Não basta decorar conteúdos; é preciso educar para a imaginação, para a interdisciplinaridade, para o gesto de atravessar fronteiras. Em um mundo cada vez mais compartimentado, Leonardo continua sendo um educador radical: ensinou que nada está separado, que tudo pode dialogar.
O que Da Vinci nos ensina hoje
Volto à cena inicial. No último Dia dos Pais, caminhei pela exposição da Visualfarm acompanhado de meu pai, minha mãe, meu irmão e minha parceira de vida. Não foi apenas uma visita cultural, foi um gesto de encontro. Diante das máquinas voadoras, das engrenagens projetadas e dos estudos de anatomia, percebi que Leonardo não estava ali apenas como gênio distante, mas como inspiração para caminhada. O que ele nos oferece, cinco séculos depois, é mais do que a beleza da Mona Lisa ou a grandiosidade da Última Ceia. É um chamado. Um convite a educar o olhar, a educar a dúvida, a educar a curiosidade. Sua vida é uma lembrança de que a imaginação pode ser tão rigorosa quanto a ciência, e que a ciência pode ser tão delicada quanto a arte.

Num tempo em que vivemos apressados, sufocados por manchetes e distrações, Leonardo nos provoca a desacelerar. A olhar devagar, a perguntar de novo, a errar sem medo. E talvez seja esse o maior legado pedagógico que ele nos deixa: a coragem de sonhar futuros que ainda não existem.
Encerrar essa visita em família, no Dia dos Pais, foi também encerrar com um aprendizado íntimo. A educação acontece quando compartilhamos o espanto, quando nos deixamos tocar juntos pelo desconhecido. Leonardo nos recorda que aprender é sempre uma experiência coletiva, mesmo quando começa na solidão de um traço em caderno. Então deixo aqui meu convite: visitem a exposição — que segue em cartaz no laboratório Visualfarm Gymnasium, localizado na Praça Olavo Bilac, 38, Campos Elíseos - São Paulo SP, até o final do mês de agosto.
Leiam sobre Leonardo, revisitem seus quadros, seus códices, seus sonhos. Mas, sobretudo, permitam-se a mesma ousadia que moveu sua vida — a de nunca perder a curiosidade.
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