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Onde foram parar as histórias?

Às vezes tudo começa de um jeito banal. Uma mesa de café, o barulho da colher batendo na xícara, alguém comentando o clima, outro reclamando da pressa do dia. E, no meio disso, um silêncio que não existia quando éramos mais jovens. Um silêncio que não é só a ausência de barulho, mas a ausência de narrativa. Hoje falta alguém dizer “deixa eu te contar uma coisa” e, com isso, suspender o tempo.


Muita gente que lê isso agora vai se reconhecer. Houve um tempo em que visitar a casa de um avô, de uma avó, de um tio mais velho significava entrar num território de histórias. A gente se sentava e, sem perceber, era levado para outro século, outro lugar, outra vida. Hoje, a gente senta e disputa atenção com a televisão, com o celular, com o noticiário que repete as mesmas tragédias.


Talvez seja por isso que essa falta incomode tanto. Porque, quando ninguém mais conta histórias, não é só a imaginação que empobrece. É o próprio passado que começa a se apagar, como uma fotografia esquecida ao sol. Isso me faz pensar em Escolástica, a avó paterna da minha parceira de vida. Ela viveu cerca de oitenta anos, mas parecia ter vivido vários séculos. Cada vez que a visitávamos, era uma nova história. Não no sentido de invenção, mas de memória viva, pulsante, que parecia nunca se esgotar.


Escolástica falava dos antepassados como se estivessem ali, sentados na sala. Falava de um bisavô que cruzou o sertão, de uma tia que fugiu para casar-se, de um vizinho que virou lenda porque ajudava todo mundo da vila. E falava também de si mesma, das secas do Ceará, da infância dura, da mudança para a cidade grande, da luta para sobreviver. Não havia pressa nas palavras de Escolástica. Havia ritmo, pausa, detalhe. E quando ela percebia que quem ouvia se distraia, ela logo dizia: — Ei, escuta! Era como se cada história precisasse ser bem acomodada no ouvido de quem escutava, como um objeto frágil que não pode cair.


Na última semana, estive em Minas Gerais, numa tentativa intuitiva de me aproximar das minhas próprias raízes. Queria ouvir as histórias do meu avô e de minha tia-avó nos lugares de onde vieram. Queria reencontrar algo que não está nos documentos, mas nas vozes. A paisagem ainda está lá. As colinas, o verde, o cheiro de terra molhada, o café passado cedo, às cinco da manhã, enquanto o sol começa a desenhar sombras compridas sobre a roça. O queijo ainda tem aquele gosto que parece condensar décadas de saber. O galo ainda canta, e como canta! Soa como um coral, primeiro um, depois outro, ora todos ao mesmo tempo.


Mas a cultura já não é a mesma. A moda de viola que embalava as noites quase desapareceu. Os repentes improvisados, que misturavam humor, crítica e poesia, deram lugar ao barulho da televisão ligada o dia inteiro. As histórias do meu avô cessaram, não porque não existam, mas porque não há mais disposição em contá-las. Os tios estão cansados, a comunidade, mesmo fisicamente afastada do mundo urbano, abriu espaço para as fofocas da internet, para as narrativas prontas, importadas, que não falam daquele chão.


É estranho perceber que até na roça as histórias estão se calando. O vento passa, os animais seguem seus ciclos, as plantações crescem, mas as vozes humanas parecem cada vez mais tímidas diante do próprio passado. Isso nos obriga a reconhecer algo incômodo. Nem todo mundo sabe ou consegue contar histórias. E isso também precisa ser respeitado. Meus pais, por exemplo, raramente me contavam histórias de suas vidas.


Eles não eram narradores como Escolástica. Não tinham prazer em reencenar o passado em palavras. Mas tinham um gesto igualmente poderoso. Cercavam-me de livros, valorizavam o conhecimento e faziam da leitura uma presença constante. Talvez fosse o jeito deles de dizer o que não sabiam contar. Talvez, ao me dar livros, estivessem me oferecendo as histórias que não conseguiam narrar em voz alta. Ainda hoje, quando tento puxar lembranças, perguntar sobre infância, sobre juventude, sobre dores e alegrias, sinto uma certa relutância. Há quem guarde suas memórias como quem guarda objetos frágeis demais para serem manuseados.


E está tudo bem. Nem toda história precisa ser dita. Mas o mundo empobrece quando nenhuma é. Contar histórias é uma arte. Não no sentido técnico, mas no sentido humano. É escolher o que lembrar, o que esquecer, o que destacar. É dar forma ao caos da experiência.


Quando alguém conta uma história, não está apenas informando. Está recriando. Está reorganizando a própria vida para que ela faça sentido para si e para o outro. A literatura infantil sempre soube disso. Autores como Pedro Bandeira, Ruth Rocha e tantos outros entenderam que contar histórias é, na verdade, ensinar a viver. É mostrar que o mundo pode ser lido, interpretado, transformado.


Em obras como O fantástico mistério de Feiurinha (Ed. Moderna Literatura, 2009, 64 p.) ou nas narrativas de Ruth Rocha sobre família, escola e cotidiano, a memória aparece como algo vivo, que se move, que se reinventa. Muitos de nós aprendemos a escutar histórias primeiro pelos livros. Marcelo, Marmelo, Martelo (Ed. Salamandra, 2011, 64 p.) ensinava que as palavras também têm infância, que perguntar o porquê das coisas é uma forma legítima de estar no mundo. Ruth Rocha, ali, não contava apenas uma história engraçada. Ela autorizava a curiosidade, o estranhamento e o direito de não aceitar tudo como está.


Monteiro Lobato, com todas as contradições que hoje revisitamos criticamente, criou um espaço simbólico poderoso. O Sítio do Picapau Amarelo (Ed. Pé da Letra, 2016, 16 p.) era, antes de tudo, um lugar de histórias compartilhadas. Dona Benta narrava, tia Nastácia escutava e reinventava e as crianças perguntavam. O conhecimento circulava em forma de conversa, não de imposição. Ana Maria Machado também compreendeu cedo que contar histórias é ensinar a lidar com o invisível. Em livros como Bisa Bia, Bisa Bel (Ed. Salamandra, 2007. 60 p.), a memória aparece como presença que atravessa gerações. Uma bisavó que já não está mais presente continua falando, aconselhando, provocando. A tradição oral ali ganha forma literária, mas não perde o afeto.


Esses livros funcionaram, para muitos de nós, como substitutos das histórias que não ouvimos em casa. Eles nos ensinaram que lembrar é uma forma de viver de novo e que narrar é um gesto de cuidado com quem vem depois.


Ler essas histórias é aprender que recordar não é ficar preso ao passado. É manter o passado em diálogo com o presente. Talvez seja por isso que a perda da tradição oral traga tantos prejuízos. Porque, quando ninguém mais conta histórias, o presente fica sem espelho. E o futuro, sem raízes.


As crianças de hoje crescem cercadas de conteúdos, mas carentes de narrativas. Veem muito, ouvem pouco. Sabem repetir, mas não sabem lembrar. Fazem dancinhas, mas perdem o ritmo da vida. Escolástica, com suas memórias do sertão, com seus relatos de migração e sobrevivência, costurava gerações sem saber. Ela dava às pessoas um lugar de onde vieram. Minas, com seu silêncio atual, me ensinou o contrário. Quando as histórias cessam, até a paisagem começa a parecer mais vazia.


Mas enquanto houver alguém disposto a contar, a escrever, a ler e a ouvir, as histórias não morrerão. Mas, quando ninguém mais conta, não é só a infância que se perde. É a própria memória do que fomos e do que ainda podemos ser.




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