A relativa idade do tempo

Lara Santana Correia Costa

São Paulo, 02 de agosto de 2021


A antiguidade grega foi marcada por grandes descobertas, fossem elas filosóficas, matemáticas, arquitetônicas ou religiosas. É inegável a importância e presença da antiguidade clássica nos reflexos do mundo contemporâneo. Quando pensamos em tempo, é preciso um certo cuidado, pois sugere que o tempo possa ser explicado de uma única forma, o que não é verdade.


Há uma frase muito curiosa relacionada a verdade, que diz que não há verdade absoluta. Ou seja, se não há verdade absoluta sobre nada que existe, então, para tudo que existe e que, se considera que possua uma verdade, possui mais de uma para aquela mesma coisa.

Newton não descobriu a gravidade porque uma maçã caiu em sua cabeça, mas pareceu interessante contar a história dessa forma, pois faria dela mais realista talvez, ou não. Talvez a necessidade de criar um mito sobre a origem da teoria da gravidade fosse tão necessário quanto imaginar que o mito da caverna de Platão existiu.


Desde a pré-história, o homem se viu atiçado pela curiosidade.

O desconhecido gera estímulo ao curioso, o desejo de justificar é o que trouxe a humanidade até onde está e é a curiosidade, que levará a humanidade onde ela precisa chegar.

Os antigos observavam o céu e através dele surgiram as primeiras concepções de tempo. Vejamos, o tempo para os egípcios era uma visão circular das esferas celestes. Eles baseavam seus dias, horários, meses e calendários de agricultura em cima da observação do cosmo. As constelações serviam de aviso para a chegada do que vieram a se tornar as estações.


Para os gregos antigos, o tempo era divido em duas partes. Havia dois deuses do tempo, Cronos, que posteriormente serviu de inspiração para o termo cronologia, era um titã, que representava o tempo dos mortais, pois era o tempo que consumia a tudo e a todos. E havia Kairós, o tempo de Deus ou, o tempo dos deuses. Para os gregos Kairós representava o tempo de forma não linear, ele estava relacionado ao plano astral, aos quais os mortais não tinham entendimento.


Outras religiões, a exemplo da cristã, creem numa vida após a morte. Se esse contexto fosse explicado através do tempo pelos olhos dos gregos mitológicos, os fiéis cristãos deixariam a vida guiada pelo tempo de Cronos e seguiriam para o plano celestial, que foge das regras de Cronos, e responde às regras de Kairós, o tempo de Deus.


A física, trata a questão do tempo de duas formas. Para a mecânica, que é o estudo do movimento na física, o tempo é absoluto. Sendo absoluto, independente do referencial, o tempo é o mesmo. 15 minutos são iguais vistos de dentro ou de fora de um carro. As discussões do tempo tomaram outro rumo quando Albert Einstein junto de outros cientistas, alteraram os cálculos da mecânica e concluíram que o tempo não era absoluto como antes se pensava, mas que ele era agora, relativo.


O tempo relativo, se aplica para todo o universo. Diferente do tempo na mecânica, a teoria da relatividade diz que para cada observador o tempo terá uma duração, ou seja, depende do referencial.


Há uma passagem no livro “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel (1532), que diz: “O tempo lança à frente todas as coisas e pode transformar o bem em mal e o mal em bem". A intenção da fala, evidentemente, é a de promover um sentido filosófico de tempo, mas não deixa de possuir um sentido literal, no qual, ao dizer “o tempo lança à frente", há um sentido de o presente lança para o futuro, que é uma concepção de tempo.


O presente, passado e futuro são concepções individuais e de autonomia do sujeito, como diria Paulo Freire (1979) e, essas concepções não deixam de ser verdades sobre o tempo, pois ele, como ser absoluto de sua relativa ciclicidade, é de idade e ordem indefinida, ao menos, ainda.


Essa perspectiva individual de tempo é consolo para aqueles que se julgam atrasados para a vida em relação aos que estão à sua volta.

O tempo pessoal segue sempre da forma que deve seguir. Sem atropelos, sem comparações, sem autopunições.

O século 21 é um constante desafio temporal, recheado de prazos, de horas marcadas, conversas cronometradas e áudios acelerados. A vida virou uma corrida contra o tempo, mas, reflita, viver desse jeito, realmente compensa?


Referências e sugestões de leitura

FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação. Introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez Editora, 1979.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução: Líxio Xavier. Ed. Especial. Editora Edipro, Edição de bolso, 2018.


Páginas consultadas:

http://quentecalculista.blogspot.com/2011/01/o-tempo-se-senta.html?m=1

https://www.comciencia.br/um-breve-panorama-do-tempo-na-fisica/


Lara é estudante do curso Ciências - Licenciatura, com especialização em Física pela Universidade Federal de São Paulo. Pesquisadora na área da Educação e Sustentabilidade. Integrante do grupo de pesquisa Movimentos Docentes, do Observatório de Educação e Sustentabilidade e do Programa Escolas Sustentáveis, também da Universidade Federal de São Paulo.

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