O berçário e as crianças durante o ensino remoto

Viviane Gonçalves

São Bernardo do Campo, 19 de julho de 2021


Desde o início do afastamento físico uma nova realidade foi sendo construída na creche, porém um dos maiores desafios estava por chegar no início de 2021, quando recebemos um grupo com 36 bebês. Estes nunca tiveram contato com a rotina da creche, assim como suas famílias, muitas destas recém-formadas, que esperavam encontrar o apoio para cuidar de suas crianças e, nesse sentido, retomar o trabalho presencial. Algumas famílias conseguem entender o trabalho pedagógico exercido na creche, porém apresentar este trabalho ainda é complexo.


Para alguns, a educação infantil ainda está ligada ao “fazer coisas”, esperam por atividades impressas ou algo do gênero. Apesar de nem todos conseguirem perceber o pedagógico envolvido no trabalho do berçário, com o ensino no formato remoto conseguimos apresentar mais claramente o que esperamos e como trabalhamos. Apresentamos as propostas e toda a intencionalidade por trás delas, assim mostramos o nosso trabalho no “chão de creche”.

Conhecer a história da creche em nosso país poderá auxiliar os professores e demais educadores que nela trabalham a tomarem consciência das funções que ela foi desempenhando e as perspectivas que se abrem para a sua ação hoje. Tal história liga-se às modificações do papel da mulher na sociedade e suas repercussões no âmbito da família, em especial no que diz respeito à educação dos filhos. Essas modificações estão presentes na organização social, com suas características econômicas, políticas e culturais. Em especial a creche deve ser compreendida dentro de um contexto social que inclui a expansão da industrialização e do setor e serviços, ao mesmo tempo em que a urbanização se torna cada vez maior (OLIVEIRA, 2011, p. 23).

Optamos na creche por manter os grupos de WhatsApp criados em 2020 e montar um novo grupo para receber as novas famílias, sendo assim o espaço de interações dos bebês. Entretanto, fomos mais uma vez desafiados. Como manter as famílias no grupo?


Pois, a partir do grupo, teríamos como formular o trabalho e conhecer as novas crianças, que agora fazem parte da creche, e mostrar a importância da comunicação feita através deste espaço. Como são bebês, contamos com a colaboração da família para as interações, a manutenção dos vínculos afetivos e a organização da rotina para que tenham sempre um tempo agradável para realização das propostas de maneira a permitir que as crianças não fiquem longos períodos diante das telas.


Nossa equipe é composta por 2 professoras, 2 agentes de apoio ao desenvolvimento infantil e 1 estagiário. Todo o grupo interage com as famílias no período das 8h às 17h. Para estas demandas, a equipe se organiza em reuniões semanais, pensando nos objetivos esperados e também na avaliação do trabalho que está sendo realizado.

Com todos estes desafios, fomos aprendendo e construindo nossa identidade. Nossas semanas acabam em uma grande troca de descobertas do cotidiano das crianças.

Uma vez por semana montamos um pequeno vídeo com a coletânea destas partilhas e o encaminhamos para as famílias, que reagem com gratidão por tudo o que vivenciamos juntos nestes momentos.

De acordo com a Lei 9394/96, a função educativa da creche exige o planejamento de um currículo de atividades, o qual deve considerar tanto o grau de desenvolvimento da criança quanto os conhecimentos culturais básicos a serem por ela apropriados (OLIVEIRA, 2011, p. 30).

Para garantir a organização no grupo de WhatsApp, as primeiras postagens foram sobre as regras e combinados, sobre como faríamos as nossas interações e o compartilhamento das propostas. Os áudios e vídeos são nossas ferramentas mais utilizadas, na tentativa da criação do vínculo e manutenção do contato. Em função dos bebês não nos conhecerem, sempre solicitamos que as famílias mostrem esses áudios e vídeos para as crianças e apresentem nossa equipe. Em nossos contatos com as famílias para conhecê-las melhor, algumas relataram que ainda não haviam apresentado o material produzido por nós para as crianças. Isso nos possibilitou uma conversa com as famílias, orientando sobre devolutivas e conseguindo, através destas interações, observar o desenvolvimento das crianças e buscar, assim, novas possibilidades na continuidade do trabalho. Com o passar dos dias, começamos a perceber uma maior interação das famílias, com postagens de fotos e vídeos feitos por elas, sendo que, em muitas vezes, estas imagens são das crianças acompanhadas de seus irmãos ou familiares em suas rotinas cotidianas.


A partir destas devolutivas, trouxemos propostas iniciais pensadas para os momentos de alimentação e de oferta de novos alimentos, do banho, do contato por meio do toque, da estimulação da oralidade, amamentação e desmame, rotina de sono e organização desta rotina. Organizamos algumas perguntas e listas com as crianças e, em cada fase, as famílias respondiam conforme trocavam as experiências entre si. Mamães com mais de um filho contavam o que viveram com os mais velhos, fazendo sugestões para outras famílias.

Como a creche tem sido cada vez mais reivindicada por um número crescente de famílias de diferentes camadas sociais, há urgência em propor formas para elas responderem às questões envolvidas no desenvolvimento de crianças e de como promovê-las para garantir um atendimento de qualidade (OLIVEIRA, 2011, p. 30).

As famílias nos relataram dificuldades nas possibilidades de acesso à internet e isso nos fez refletir sobre a quantidade de mensagens e vídeos postados. Dessa forma, adequamos as interações, diminuindo a quantidade e ganhando qualidade, e as respostas das postagens deixaram de ser individuais e passaram a ser coletivas, sempre por áudio e nomeando as crianças.


Com todas estas mudanças que passamos desde março de 2020, o registro do trabalho também se modificou, pois agora o realizamos de maneira coletiva e não mais individual por período. O grupo é um só e nessa perspectiva fomos entendendo que a realidade da sala de aula está diferente, o grupo de profissionais da creche está mais homogêneo e o registro mostra toda esta evolução, por estarmos trabalhando de uma maneira muito distinta do que esperamos na educação infantil.

Tudo o que produzimos deve ser organizado para que tenhamos como contar a trajetória da creche durante este período de afastamento físico e, a partir deste material, enriquecer o nosso trabalho.

Criamos materiais diversos em arquivos digitais e compartilhamos com as professoras de outros ciclos. Em 2020, Paulo Fochi (reconhecido especialista em educação infantil) argumenta que o registro deixa de ser a rotina do trabalho e passa a ser o documento da história na educação infantil. Através destes registros e da sistematização do trabalho remoto, conseguimos acompanhar e dar suporte, inclusive, para as famílias com crianças deficientes ou, em estudo de caso, buscamos profissionais específicos para, em reunião por videochamada, entender as necessidades da família e juntos encontramos meios de auxiliar o desenvolvimento integral dessa criança. Nestes casos, orientamos a família tanto no grupo quanto no privado.


Com o objetivo de proporcionar o desenvolvimento integral das crianças, buscamos alternativas pedagógicas que considerassem as necessidades não só das crianças, mas também das famílias da nossa comunidade.

Nosso maior objetivo foi procurar meios de manter os laços afetivos e elaborar propostas que, primeiramente, respeitassem os direitos de aprendizagem das crianças e, ao mesmo tempo, prezassem por ofertas de propostas condizentes com os campos de experiência, faixa etária e especificidades das crianças.

Tudo o que fomos construindo neste primeiro semestre se torna muito gratificante ao observar o desenvolvimento das crianças em seus primeiros passos. Os dentes chegando, alguns engatinhando, sentando, escalando e explorando. As explorações levam quase sempre aos armários da casa que são, nesta faixa etária, um dos lugares preferidos.


Procuramos sempre manter um trabalho democrático, participativo e com muita parceria, considerando a importância do vínculo afetivo, do acolhimento, do acompanhamento das crianças, do respeito às infâncias e do apoio psicológico. Então, cuidamos da presença e interação das famílias, tentando fazer da casa de cada criança um pouquinho do nosso espaço creche e buscamos saber os motivos da diminuição das participações, as necessidades de cada família.


As interações diretas com as crianças nos fazem muita falta, eram possíveis os abraços e o atendimento às necessidades de maneira integral. Também sentimos falta das trocas pessoais, das interações em equipe e das propostas inter-salas, ampliando nossas possibilidades de brincar por meio dos diversos recursos no chão da creche. Mas, mesmo não havendo retorno presencial previsto até o momento para o berçário, a creche não parou. Seguimos de modo a propiciar o desenvolvimento das crianças e o acolhimento e apoio às famílias, que embora também anseiem pelo retorno presencial, demonstraram-se felizes e gratas ao compartilhar conosco esses momentos, de descobertas dos bebês. As famílias recebem da prefeitura um kit com alimentos e o dia da entrega é sem sombra de dúvidas o que mais tem interações, o que mostra a grande necessidade das famílias. Esta somatória de forças auxilia muito neste período de afastamento físico.


O trabalho pedagógico no espaço creche está cada vez mais valorizado, ainda mais quando pensamos em sua importância e seu papel social, cultural e humanitário. Contudo, vários desafios ainda persistem e, mesmo diante de um cenário tão difícil, percebemos que paradigmas foram mudados na sociedade e essa aproximação entre as pessoas em casa, e também entre as unidades educacionais e a família, fortaleceu o elo e ampliou a visão de ambos.


Fonte:

OLIVEIRA, Zilma Moraes de. Creches, crianças, faz de conta & cia. 16ª ed. Ed. Vozes, 2011.


Sugestões de leitura:

BRASIL, Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação é a Base. Brasília, MEC/CONSED/UNDIME, 2017.

ROSSET, Joyce M.; WEBSTER, Maria Helena; FUKUDA, Joyce Eiko; ALMEIDA, Lucila. Práticas comentadas para inspirar. 1ª ed. Ed. Do Brasil, 2017.


Viviane é professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental nas redes públicas das cidades de Santo André (SP) e São Bernardo do Campo (SP) e formada em Pedagogia com pós-graduação em Arte Educação e Letramento e Alfabetização. Por alguns anos trabalhou com Educação Social para estudantes das mesmas redes no contraturno e também desenvolve atividades como escotista na cidade de São Bernardo do Campo (SP).

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