O aprender numa perspectiva da pós-modernidade

Atualizado: Jun 29

Lara Santana Correia Costa

São Paulo, 24 de maio de 2021


Quando refletimos sobre a era na qual se encontra atualmente a humanidade, supomos que vivenciamos a tão anelada, modernidade. O que o leitor talvez não saiba, e porventura seja interessante mencionar, é que nos encontramos na pós-modernidade. Pode-se dizer que não faz sentido a autora desta coluna inserir um termo pouco convencional, porém, para os estudiosos, o que configura a entrada na modernidade, é em suma, o uso da razão.


A modernidade, surge no século XVI advinda dos ideais do protestantismo, com um viés filosófico atrelado ao racionalismo e ao positivismo. Esse momento é conhecido pela busca pelo progresso, pela ordem, consumo em massa, o boom capitalista, a sociedade como espaço que assegure direitos iguais, autonomia e autorrealização. Os reflexos desta era levaram à segregação de ideais, decorrente da quebra entre razão e espírito. Mais adiante, a segregação tomou forma de ordens mundiais, cedendo às delimitações de territórios, fomentando guerras sob justificativas de “o outro não é igual a nós”, “o progresso só vem através da batalha”, e mais ainda, “o fortalecimento bélico é a chave do futuro”, será?


A pós-modernidade traz o paradoxo da razão, o que significa dizer que a nova era trouxe as irracionalidades existentes na sociedade. É uma era marcada pelo avanço da tecnologia, sugere a ruptura com os vieses de valores e ordem estabelecidos no modernismo, sendo marcada principalmente pelo narcisismo, pela busca incessante do prazer, bombardeamento de informações, liberdade de expressão e efemeridade.


A busca pela felicidade é marca do pós-modernismo. Essa corrida pela felicidade, desencadeada pelo ideal capitalista, é decorrente da perda de valores e posições sociais, que anteriormente eram desígnios de subjetividade do ser humano. Agora, a subjetividade do ser é determinada pelo mundo da produção e do consumo.


Quando levamos a reflexão para a educação, sabemos o que as ordens mundiais causam sobre ela. O discente, não é alheio às mudanças do mundo, pelo contrário, ele traz consigo todas essas inovações, visto que é um dos primeiros a sentir o seu efeito, ao menos, do ponto de vista da colunista.


Ao questionar sobre o aspecto da pós-modernidade na prática estudantil, é visível a ação capitalista sobre o ensino e aprendizagem. Um aluno é reconhecido, na mais pura e esmagadora realidade, por conta da qualidade de seus resultados.


Determinamos um aluno bom pela sua eloquência e presença em sala de aula, o que condiz com as características narcisistas dessa era. A própria tática escolar por vezes, é feita para um aluno que não existe. Dizemos aos alunos que, se não obtiveram resultados, é porque não se esforçaram o suficiente, e francamente caro leitor, sabemos que nem sempre isso é verdade.


Todos possuímos nossas limitações, e por mais dedicados que sejamos em quaisquer assuntos, temos de reconhecer que não há como deter toda a sabedoria, conhecimento e resultado do mundo. Essa reflexão não é para convencer de que não nos esforcemos nas nossas atividades escolares, mas sim como forma de consolo em dizer que nem sempre teremos nossa melhor performance.


O tempo é mercadoria nos dias de hoje, o que para o aluno é um prato cheio de ansiedade, insegurança, angústia e pânico do futuro. Isso pode parecer exagero, mas, basta analisar ao redor de nossa bolha para vermos os reflexos que o excesso de afazeres causa, não apenas nos alunos, mas nos professores e em toda a comunidade social.


Em uma obra lida recentemente, o psicólogo em questão, leva o leitor a refletir sobre a aprendizagem como um todo. Há um consenso entre pesquisas acerca de processo-aprendizagem que tratam sobre a demora do aprender, porque o aprender, leva tempo. Ocorre que, vemos cada vez mais assuntos e grades sendo preenchidas, e cada vez menos tempo para seu devido processamento. Preparamos o aluno para de tudo estudar, mas, não o preparamos para de tudo saber.


A esperança diante do que parece serem apenas pontos negativos, é de que a pós-modernidade oferta oportunidades de reinvenção. Reinventar o educar, pois a ele cabe a esperança. Reinventar a importância da coletividade para além do individualismo, pois a ela surge a compreensão da naturalidade do erro, da vida e do aprender.


Já que estamos falando dessas perspectivas mais recentes, pós-modernas, que o mundo contemporâneo nos trouxe, uma ideia que dialoga muito bem com a dimensão de coletividade para superar o individualismo, é a sustentabilidade.


A sustentabilidade refere-se ao suporte de um ecossistema. Portanto, conhecer e respeitar os ciclos realizados por um sistema, atender às necessidades humanas sem comprometer o meio à sua volta, garantir a existência de elementos essenciais para o ambiente, reconhecer fatores que limitam essa existência e enfrenta-los, assim como projetar a manutenção dos meios em prol das futuras gerações é objetivo trabalhado pela sustentabilidade, na busca de um sistema saudável.


A construção desse sistema surge devido às necessidades econômicas e culturais das sociedades, que necessitam de garantir a existência biológica, o afeto, a produção material, a participação na vida social, a liberdade e a identidade. Veja bem, a construção de um sistema saudável leva em conta todos os fatores necessários para um ambiente de equilíbrio, não havendo espaço para favoritismo de qualquer espécie. Como sabiamente disse Loureiro (2012), o conceito de sustentabilidade é instigante, pois, numa realidade onde o efêmero e o imediato têm tanta vez, propor uma discussão sobre a responsabilidade pelas vidas futuras decorrentes da prática do agora é consideravelmente radical.


Este assunto não possui fim. Finalizo e deixo como sugestões de leitura e reflexão: Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, a entrevista de François Dubet, publicada na Revista Brasileira de Educação (nº 6, 1997) e Sustentabilidade e Educação: um olhar da ecologia política, de Carlos Frederico Loureiro.


Sugestões de leitura

DUBET, François. Quando sociólogo quer saber o que é ser professor. Entrevista concedida à Angelina Teixeira Peralva e Marilia Pontes Sposito, Universidade de São Paulo. Tradução de Ines Rosa Bueno. Revista Brasileira de Educação n º6, 1997.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

LOUREIRO, Carlos Frederico B. Sustentabilidade e Educação: um olhar da ecologia política. São Paulo: Cortez, 2012.


(*) Estudante do curso Ciências - Licenciatura, com especialização em Física pela Universidade Federal de São Paulo. Pesquisadora na área da Educação e Sustentabilidade. Integrante do grupo de pesquisa Movimentos Docentes, do Observatório de Educação e sustentabilidade e do Programa Escolas Sustentáveis, também da Universidade Federal de São Paulo.



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