Enlaces entre Educação e redes sociais: algumas ideias, muitas preocupações

Arnaldo Silva-Junior

Mauá, 28 de junho de 2021


Temos discutido sobre como as perspectivas na Educação sinalizam para um caminho de desenvolvimento do protagonismo, da autonomia e da criticidade nos estudantes. Não constato dúvidas quanto às benesses sociais desse processo. No entanto, me indago sobre o quanto, nós professoras e professores, estamos preparados para esse perfil discente. Será que estamos conseguindo conduzir processos pedagógicos que fertilizam essas características tão almejadas? Juntamente com esse questionamento, adiciono um outro complicador para os dias de hoje − absolutamente marcante e decisivo. As redes sociais. Se você exerce a docência em 2021, provavelmente está na transição geracional. Isto é, viveu parte da vida no mundo analógico e agora vive em um mundo digital, de maneira praticamente inescapável. Pois bem, dada a contextura, brevemente apresentada nessa introdução, vale outra pergunta:

Como educamos em um mundo de redes sociais?

Como prometido no título, vou delinear algumas ideias e preocupações a respeito de como as redes podem impactar na Educação. Farei isso a partir de dois documentários: O Dilema da Redes (2020) e A Terra é Plana (2018). Sei que os dois materiais não são exatamente novidades, mas penso que revê-los sob uma certa ótica é bastante válido. Acredito que o conteúdo de O Dilema das Redes já nos fosse familiar, porém, enxergo seus méritos em desenhar, de modo muito límpido, o panorama do problema. Já A Terra é Plana, demonstra como a falta de confiança na Ciência e nas instituições e o senso de grupo − incentivados pelas redes sociais − podem levar pessoas à crença de que o formato esférico do nosso planeta é uma mentira, contada intencionalmente. Do meu ponto de vista, consigo vislumbrar articulações entre os dois documentários, que em parte, diagnosticam o que temos passado.


Para início de conversa, é inegável que há pontos positivos nas redes socias. Seria paradoxal não considerar isso, afinal, por meio delas, tenho a oportunidade de divulgar esse texto para que você o leia. Quando falamos de Educação, as possibilidades que o mundo digital e a internet admitem são fabulosas − pelo menos, quando as ordenamos de modo a favorecer o processo educativo. A utilização de múltiplas ferramentas, plataformas de busca, sites, aplicativos, videochamadas, comunicação instantânea, entre vários outros recursos que eu poderia continuar escrevendo. Por outro lado, temos os aspectos negativos.


Imagine que você está em aula, enquanto docente, trabalhando climatologia. Em resposta às suas exposições, um estudante alega, ainda que de maneira educada, que as mudanças climáticas não existem. Digamos que você, como se planejou bem, já cogitava a possibilidade de um questionamento nessa direção e apresentou sua tréplica de maneira impecável. Mas será que em um mundo de redes sociais e apinhado de fontes pouco ou nada confiáveis, foi suficiente para que o estudante repensasse e eventualmente mudasse de posição?


Na sua aula, você tem um tempo restrito de argumentação. Contudo, o estudante questionador, exemplificado no parágrafo anterior, quando entra em uma bolha de negadores do aquecimento global, terá horas e mais horas de contato com esse tipo de material. E não raro, os negacionistas irão dizer que a escola expressa o oposto, pois seu objetivo é o de ludibriar. Ressalto que o exemplo hipotético conta com alguém preparado para contra-argumentar. E se a professora ou professor não esperasse que movimentos negacionistas tivessem capilaridade e reverberassem dessa forma nos espaços educadores? Talvez nesse cenário, fossem pegos de surpresa e hesitassem na resposta.

Ou seja, preparados ou não – é melhor que nos preparemos −, o negacionismo continua a solta e nós, como docentes e cidadãos, precisamos lidar com ele.

Se para você que lê essa coluna, os assuntos sobre climatologia não são do escopo imediato da sua área, pense em exemplos que se encaixam com a sua formação ou assuntos de interesse − acredito que nesse sentido, todas as áreas têm suas cruzes para carregar.


Agora vem uma outra pergunta. O estudante questionador não é o que alegamos buscar? A ideia não é questionar tudo? Sim, queremos cidadãos que refletem e questionam o mundo ao seu redor. Vamos pensar em outro exemplo. Quando falamos de um tópico científico, que já seja bastante consolidado entre seus pares, e alguém o questiona, devemos pensar de que lugar vem esse questionamento. Pode ser de uma pessoa que nunca se perguntou ou teve contato com o assunto – posição bastante legítima – e, assim, quando se dispõe a aprender, passa a conhecer e compreender melhor. Talvez venha de alguém que é mais íntimo do tema e foi perspicaz a ponto de identificar uma fragilidade da ideia e, desse modo, movimenta a roda do conhecimento, cuja tração vem desse tipo de dúvida – também há legitimidade aqui. Todavia, quando o indivíduo questionador enuncia sua pergunta e, apesar de todas as evidências lhe serem apresentadas, o sujeito não se convence, não traz um argumento plausível, não elabora uma explicação ou ideia melhor, nem usa outros estudos como contraponto, chegamos a um impasse.

Uma coisa é a pergunta genuína, sincera, que promove avanços. Outra coisa é descolamento da realidade.

As redes sociais podem ser muito eficazes em gerar descolamentos de realidade, como os documentários mostram. Estamos vulneráveis aos algoritmos, pois são projetados para estimular a nossa permanência na frente das telas. Sobre docência, penso que o mínimo que podemos fazer é conhecer os “argumentos” negacionistas, pois, dessa forma, nos prepararíamos um pouco melhor. Nesse sentido, e olhando para um recorte mais brasileiro – porque não sei muito bem como funciona em outros países –, temos que olhar com prudência quando as operadoras de telefonia móvel oferecem internet gratuita para algumas redes sociais e cobram pela navegação em outros espaços. O Brasil é um país enorme, de realidades diversas e nem todo mundo tem grana sobrando para pagar por uma conexão que amplie o leque de fontes. Aparentemente, essas condições podem gerar pessoas que entendem que o Facebook e o WhatsApp são a internet. Essa visão restrita pode ser catalisadora de consequências extremamente nocivas para a sociedade, dependendo do que chega no feed.


Também acredito que é simplista definir os negacionistas como pessoas “privadas de inteligência”. Não acho que é bem por aí. Entendo que são pessoas que racionalizam sobre uma ideia, conectando pontos que não têm relação entre si – ou tem, mas é uma relação distante – e, portanto, criam uma narrativa que faz sentido para elas. Evidências que refutam a narrativa são ignoradas e/ou acusadas de estarem contaminadas. Então, por conta do viés de confirmação, essas pessoas passam a aceitar somente as ideias que concordam com o que elas já pensavam – não que o viés de confirmação seja exclusivamente da alçada dos negacionistas, afinal, todos temos que lidar com ele. Pronto. O caminho para um teórico da conspiração está pavimentado. E claro, haverá aquele que tem consciência do absurdo que propaga, mas se mantém no jogo, pois a disseminação da narrativa o beneficia. Esse tipo de racionalização é danosa.

E aqui, vai outra opinião deste que escreve: não existe teoria da conspiração inofensiva. O modo como esses grupos concatenam as ideias me parece, em boa medida, similar. O que eu quero dizer com isso? Penso que há uma tendência. Quanto mais o indivíduo mergulha no negacionismo, mais se torna suscetível a novas conspirações. São várias reflexões a se fazer e os documentários citados nos ajudam nessa tarefa. O que defendo aqui é a discussão saudável de ideias, seja nos espaços de ensino formal ou não formal, e que possamos aprender juntos. Dentro dos limites da plausibilidade, da razoabilidade. E que o debate aconteça de modo a patrocinar a construção de novos conhecimentos. Nem de longe sou versado em marketing digital, monetização digital ou áreas afins. Porém, a partir do momento que as redes passam a impactar eleições diretamente, derrubar governos, promover extremismos, ódio e preconceito, penso que é imprescindível que haja alguma regulamentação e responsabilização.

Um modelo de negócio que lucra em função da propagação de negacionismos não é aceitável.

Precisamos compreender melhor como esses algoritmos são operacionalizados. A desinformação e o discurso de ódio originados nas redes sociais têm a capacidade de abreviar vidas, de ameaçar e fraturar a democracia. Se a democracia sucumbe, o sonho de uma Educação Libertadora e de um mundo mais sustentável também recebe um golpe avassalador. Te convido a pensar sobre esses assuntos. Essa luta a gente não pode perder.


DOCUMENTÁRIOS

CLARK, Daniel J. (dir.). A Terra é Plana. 2018. (95 min.).

ORLOWSKI, Jeff (dir.). O Dilema das Redes. Netflix, 2020. (94 min.).


Arnaldo é Mestre em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Análise Ambiental Integrada (UNIFESP) e professor de Química na educação básica, atuando na rede pública estadual de São Paulo. Membro do grupo de pesquisa Movimentos Docentes (MD) e do Observatório de Educação e Sustentabilidade (ObES), assim como do grupo de estudos Educação Ambiental Transpessoal (EAT), todos na UNIFESP. Também integra o grupo de pesquisa Núcleo de Investigação em Educação Química (NIEQ) na UFABC.

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