Crônicas da vida cotidiana e a pedagogia das injustiças aos morcegos

Atualizado: Jun 29

Luiz Afonso V. Figueiredo*

La Blanca Mérida, Yucatán México, 26 de abril de 2021


Momento 1: O supermercado como espaço educacional, morcegos incompreendidos


Tem dias que a gente nem espera, mas acontecem coisas extraordinárias na vida, mesmo parecendo que tudo está em revolução. As propostas para as minhas aulas de educação ambiental na universidade não andavam nada bem, havia muita incompreensão das atividades e caminhos sugeridos, por possuírem um tom mais participativo e necessário maior envolvimento dos licenciandos. Acontece que a galera vinha de uma trajetória calcada predominantemente pelo ensino tradicional, não era culpa deles, mas estava difícil convencê-los da importância das rupturas.


Era complicado fazê-los ver a importância de novas formas de ensino e a busca de romper com os modelos instituídos. Eu queria que eles e elas percebessem que a educação acontece todos os dias e a toda hora. Eu costumo denominar de Educação com E maiúsculo, ou seja, aquela que não necessita de nenhum tipo de adjetivo e nem um lugar especial para que aconteça. Por isso, eu pedia e valorizava que eles fizessem um diário de registros e reflexões. Mas essa é outra história.


Enfim, eu estava devaneando sobre o assunto enquanto me preparava para ir às compras no supermercado. Era o dia 14 de setembro de 2016, quarta-feira, uma tarde um tanto confusa, que me deixava pensativo. Despretensiosamente, coloquei para sair a camiseta verde-clara do Projeto AMORcego (hoje conhecido como ACHEI MORCEGOS), um presente que ganhei em um evento de espeleologia do simpático e atuante especialista em morcegos, o Prof. Dr. Wilson Uieda (UNESP-Botucatu e Programa para a Conservação de Morcegos no Brasil-PCM-Brasil), na qual divulgava um fantástico aplicativo desenvolvido para identificação de morcegos brasileiros (conheça aqui). Assim, saí de casa tranquilo, não me dei conta de que esse seria um dia bem diferente, afora os problemas corriqueiros de saúde que me afligiam naquele momento.


Depois de passar pela farmácia e também comprar frutas e legumes, estava esperando ansiosamente para passar as coisas pelo caixa. Inusitadamente, a funcionária da caixa registradora faz uma pergunta inesperada para aquele instante cotidiano e rotineiro, “Você não tem medo desse bicho?” Eu meio distraído, “Hã?!”. A operadora: “É! [e aponta para a minha camiseta, aonde estava desenhado um simpático morceguinho]. Você já viu esse bicho, eu morro de medo só de pensar”. Eu disse, “mas, por que ter medo? Olha, na verdade eles são muito mal interpretados, pois somente três espécies entre centenas deles são hematófagos, ou seja, alimentam-se de sangue, todos tem um importante papel na natureza.” De repente, sou interrompido por uma pessoa que vinha atrás na fila e entra na conversa, por pura curiosidade, estimulada pela conversa entabulada naquele episódio.


A senhora vem com a carga toda: “Nossa. as pessoas dizem que eles enroscam no cabelo da gente e atacam”. Bom, aí foi a minha deixa para explicar que essas histórias eram mitos criados no passado e transformados em contos e depois em filmes que exacerbavam a ideia de vampirismo e acabou virando moda, na maioria das vezes com conotação pejorativa, negativa aos pobres morcegos.


A operadora do caixa voltou à carga e disse que viveu no interior e que lá tinha muitos morcegos, que lhe causavam arrepios. Mas eu falei que era porque lá, provavelmente, existiam animais quadrúpedes, como vacas e cavalos, ao que ela confirmou, e que eles os preferem porque não conseguem se defender. Os morcegos hematófagos costumam voltar ao mesmo lugar para lamber o sangue. Falei que eles não “atacam”, como se costuma dizer, eles têm um sonar que lhes permite voos e acrobacias inimagináveis, sendo muito raro choques entre pessoas e esses animais, que são os únicos mamíferos efetivamente voadores.


Foi aí que percebi que estava rolando a chance de explorar mais o tema, mesmo com a fila aumentando [risos]. Então, utilizando uma estratégia didática que costumo propor, falei assim: “Quando vocês pensam em um beija-flor, o que lhes ocorre”. Elas foram enfáticas, até com seus semblantes... sorrindo, disseram quase em coro: “são lindos, maravilhosos”. Respondo de imediato, “Pois ai está! Os morcegos são mal compreendidos, eles também se alimentam de néctar, são polinizadores, transportam sementes, comem insetos, etc. É uma barbaridade matá-los somente pelo imaginário negativo que se tem propagado”.


Não satisfeitas elas vieram com o famoso “mas eles são feios”. Era uma boa hora para reproduzir aquela máxima “feio, depende dos olhos de quem vê”. Apesar das dúvidas, elas ficaram encantadas ouvindo minhas palavras, desmistificando algo profundamente arraigado nelas, vinculado à ideia de maldade, aversões e nocividade. Percebia-se que havia algo de ingenuidade, era uma curiosidade espontânea, a possibilidade de trocar informações trazendo novas visões às suas vidas. No final elas me agradeceram, eu só respondi que esse era o meu papel como educador.


Desde o episódio eu fiquei com aquela estranha sensação de alerta, de que aquele simples e inusitado evento me levaria a algo maior. Eu estava eufórico por ter vivenciado na prática a educação fluindo em toda sua intensidade cotidiana. Fiquei matutando sobre o tema e acabei transformando essa situação em uma crônica que tenho utilizado como provocação inicial para minhas aulas de educação e conservação ambiental e também em palestras sobre cavernas.


Momento 2: os morcegos e seu legado para a espeleologia


Mesmo antes dessa situação no supermercado, eu percebia que todo esse simbolismo negativo dos morcegos já complicava a situação desses bichinhos. Como estudioso de cavernas, e alguém que investigou no doutorado a questão do imaginário social e paisagens simbólicas, considero que os morcegos carregam símbolos arquetípicos cheios de imagens ruins em quase toda a sua história de relação com os seres humanos, muitas vezes por simples incompreensão, desinformação e pré-conceitos, agravados pela literatura e cinema (FIGUEIREDO, 2010).


Por outro lado, como pesquisadores e exploradores de cavernas, vemos que eles são muito importantes para a atividade espeleológica. Quase sempre configuram simbolicamente em nossas ações, assim como nos logotipos e representações das entidades e práticas espeleológicas. Mais do que isso, são nossos companheiros dos subterrâneos, são sempre bem-vindos. O contato com eles é fundamental, seja por sabermos da sua importância para o ambiente cavernícola, como polinizadores, controladores de insetos, disseminadores de sementes, e tantos outros importantes serviços ecossistêmicos e conhecimentos envolvidos. Ademais, ajudam em nosso trabalho, por indicarem, muitas vezes, passagens possíveis para continuarmos nossa progressão segura pela caverna. E mesmo um encontro próximo com eles em um conduto apertado nos oferece um momento hilário e inesperado, todavia agradável, já que eles podem se acercar milimétricamente de nossas caras e praticamente não se chocar com a gente, nada além do farfalhar de suas asas.


E a gente vê morcego para todo lado, tanto no sentido literal, quanto metafórico. Estudando o papel do cinema na educação e geografia cultural, percebi que até super-heróis aparecem na figura do morcego. O Batman, e mesmo a Batgirl, usam como esconderijo uma caverna cheia de morcegos. Valem-se dos morcegos como forma de compartilhar o medo com os vilões das histórias. Há, ainda, os morcegos feitos monstros, fruto de uma imaginação duvidosa, oportunista, como as mutações no filme The Cave (A Caverna) e tantos outros filmes de terror, que exploram essa visão inadequada, que perpetuam visões negativas (FIGUEIREDO, 2010).


Um outro momento, desperta em minhas lembranças, essa é sobre o dia 01 de outubro de 2019. Esse dia é considerado o Dia Internacional dos Morcegos, e visa difundir conhecimentos e estimular a conservação de morcegos. No Parque Estadual da Caverna do Diabo foi organizada nesse ano a II Semana do Morcego, aproveitando que o gestor do Parque é biólogo e pesquisador de quirópteros. As atividades contaram com diversas brincadeiras e ações de divulgação científica, difundindo o papel dos morcegos na natureza. Era muito bonito ver crianças e, mesmo jovens e adultos, divertindo-se e aprendendo sobre esses injustiçados animais.


Momento 3: morcegos e reflexões pandêmicas


Enfim, passados mais de três anos desde aquele acontecimento no supermercado, encontro-me recém aposentado, preparando-me para começar vida nova em outro país, no caso em terras yucateco/mexicanas, mas em plena pandemia de Covid-19 (Coronavírus, SARS-CoV-2).


Novamente os morcegos ganham destaque, infelizmente continua sendo negativo. Deparamo-nos durante a pandemia com acusações de que os morcegos seriam os responsáveis pela situação, seriam “transmissores”, aliás, nem sei o que querem dizer com isso. Como assim? A culpa é dos morcegos? Não acredito nisso, seria simplificar demasiadamente a história. Quando falam assim, estão se esquecendo de mencionar diversos fatores alterando o meio ambiente. como o aumento da degradação ambiental e as mudanças climáticas, que alteram habitats, as cadeias alimentares e a biodiversidade. E como fica a situação do aumento intensificado da população das cidades, o crescimento urbano-industrial, invadindo e eliminando área verdes, espécies e espaços de conservação ambiental, levando a situações incorretas, como o consumo de animais silvestres. Além disso, há também a ampliação do número de viagens internacionais, gerando enorme circulação de todo tipo de vírus pelo mundo todo, o que, sem dúvida, é um fator decisivo em um período de pandemia. Boas reflexões sobre isso foram feitas por Sato, Santos e Sánchez (2020).


Diversos autores vêm contrapondo e contribuindo com a disseminação de conhecimentos adequados sobre morcegos (REIS et al., 2007; DOMENICHELLI, 2018; LAMIM-GUEDES; COSTA, 2018; MORATELLI; CRUZ-NETO; FILARDY, 2020) (veja aqui e aqui), além de importantes ações de instituições de conservação ambiental, tal como o Bioparque Macuco e o seu tradicional e criativo evento noturno, Criaturas da Noite, realizado na região paulista do Grande ABC.


Depois de compartilhar essas reflexões e momentos, vislumbro que é necessário repensarmos urgente sobre nossas inter-relações com o ambiente, as relações entre cultura e natureza. Vejo diversas possibilidades a partir de uma pedagogia da cotidianidade.



Sugestões e recomendações de leituras

DOMENICHELLI, Guilherme. Criaturas noturnas: os animais que vivem na escuridão dos biomas brasileiros. São Paulo: Panda Books, 2018.

LAMIM-GUEDES, Valdir; COSTA, Luciana M. (Orgs.). Morcegos: além dos mitos. São Paulo: Na Raiz, 2018. Disponível em: https://editoranaraiz.wordpress.com/2018/11/13/morcegos-alem-dos-mitos/. Acesso em: 20 abr. 2021.

MORATELLI, Ricardo; CRUZ-NETO, Ariovaldo P.; FILARDY, Alessandra. Morcegos e vírus mortais. Nova Ciência Hoje, n. 364, 2020. Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/ morcegos-e-virus-mortais. Acesso em: 22 abr. 2021.

REIS, Nélio R. dos; PERACCHI, Adriano L.; PEDRO, Wagner A.; LIMA, Isaac P. de (ed.). Morcegos do Brasil. Londrina, PR: Nélio R. dos Reis, 2007.

SATO, Michèle; SANTOS, Deborah M.; SÁNCHEZ, Celso. Vírus: simulacro da vida? Rio de Janeiro: GEA-SUR, UNIRIO; Cuiabá: GPEA, UFMT, 2020. Disponível em: https://onedrive.live.com/?authkey =%21AJeqoMZqMU2F4yw&cid=6F738C9CF42A30B0&id=6F738C9CF42A30B0%21142730&parId=6F738C9CF42A30B0%21142716&o=OneUp. Acesso em 22 abr. 2021.


Páginas consultadas

1. http://www.acheimorcegos.com.br/index.php

2. https://radios.ebc.com.br/brasil-rural/2018/06/importancia-do-morcego-para-natureza

3. http://www.saocarlos.usp.br/usp-lidera-forca-tarefa-para-descobrir-as-conexoes-entre-as-especies/


*Afonso é Professor-Pesquisador aposentado da área de Educação e Ciências Ambientais do Centro Universitário Fundação Santo André (1986-2020). Licenciado em Ciências Naturais e Química pela Fundação Santo André (1982). Mestre em Educação (UNICAMP, 2000). Doutor em Geografia Física (USP, 2010). Membro fundador do Grupo de Estudos Ambientais da Serra do Mar (GESMAR). Espeleólogo e ex-presidente da Sociedade Brasileira da Espeleologia (2009-2011) e ex-secretário adjunto da Federación Espeleológica de América Latina y del Caribe (FEALC) (2010-2018). Membro ativo de redes de educação Ambiental desde 1989 (REPEA, REBEA, RUPEA, REASA).

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